A verdadeira dieta do paleolítico – 2º parte

dieta do paleolítico

Paleolítico e Macros (hidratos, gordura e proteína)

Hidratos de carbono

A quantidade de ingestão de carbohidratos dos humanos ancestrais era

similar em magnitude aos dias de hoje (40-50%). Contudo há uma diferença qualificativa, enquanto que as fontes de carbohidratos eram derivados de vegetais e fruta, apenas uma pequena percentagem era derivado de grãos, com aumento de consumo ao se aproximar o fim do paleolítico (ver parte 1).

No paleolítico consumiam cerca de 3 vezes mais vegetais e fruta que a dieta moderna de hoje; o colesterol é estimado ter sido 480mg/d devido ao alto consumo de animais (1/3 da base nutricional); o total de gordura é estimado ter sido 20-25%. [7]

Screenshot - 6_11_2015 , 9_49_48 AMA ingestão de vegetais e frutas era provavelmente similar ou maior ao consumido por veganos actuais, 2.6 vezes maior que omnívoros actuais [7,8].
Caçadores colectores usam mais de 100 espécies de frutas e vegetais em cada localidade para a sua subsistência. Estas práticas fornecem uma variedade abundante de micronutrientes e  compostos biologicamente activos deles derivados.

Existe uma forte e consistente associação entre o consumo de vegetais/frutas e prevenção de cancro [7,9,10,11] o que poderá reflectir benefícios da carga intrínseca de micronutrientes e fitoquímicos.

Gordura

Em comparação com animais domesticados, os selvagens têm consistentemente menos gordura [12,13]. Os depósitos de gordura são mais discretos e pequenos, primariamente à volta das gonádas (sistema reprodutivo), rins e intestinos e apenas durante períodos do ano quando há abundância alimentar.

O músculo é magro [12,14]. A pouca gordura presente é gordura estrutural das membranas das células musculares e relativamente rica em gorduras mono e poli insaturadas de ambas as famílias ómega 3 e ómega 6.

A gordura e consequente ingestão calórica foi maximizada pelo consumo do cérebro e orgãos gordos ricos em gordura poliinsaturada (PUFA) e medula óssea (rica em gordura monoinsaturada (MUFA). A carne consumida, principalmente o fígado, é rica em ferro, zinco, vitamina C, ácido fólico e B12 [12,15].

Aves têm menos gordura em geral que carne comercial (4.2 g/100 g vs 20.0 g/100 g) [7,16], enquanto que a proporção de ácidos gordos C14 e C16 é também mais baixa (0.99g/ 100g vs 5.64 g /100g gordura). Por estas razões as aves de caça selvagens têm muito menos tendência a aumentar o colesterol que a carne dos supermercados [17,18].

Os riscos para doença cardiovascular vêm da excessiva gordura e em particular gordura saturada associados com a carne dos animais modernos domesticados.

Durante a selecção evolucionaria a adaptação genética foi adequada a características fisiológicas para uma dieta elevada em carne magra, baixa em gordura total e saturada e relativamente rica em gordura poliinsaturada. Desde que a gordura seja cortada e retirada e que a carne seja consumida dentro de uma dieta variada, é uma componente saudável e benéfica [12].

Proteína

O elevado consumo de proteína em humanos “paleolíticos” ocorreu/ocorre num contexto nutricional de baixa gordura e elevado consumo de frutas e vegetais. A fibra excedia 100g/d primeiramente das frutas, legumes, nozes, raízes, e outras fontes vegetais não cereais.

A dieta pré-agricultural  retroprojectada não devia fornecer um conteúdo alto de hidratos nem de gordura. Dadas as propriedades nutricionais de aves de caça (alto em proteína relativamente à energia) e plantas não cultivadas (alto em fibra relativamente à energia), uma dieta pré-agricultural teve necessariamente de ser elevada em proteína, fibra ou ambas. Se o rácio médio de subsistência vegetal:animal foi de 65:35, uma dieta com 30% de proteína e 100g de fibra emerge [7].

Characteristics of hunter-gatherer and Western diet and lifestylesA recomendação para manter o consumo de gorduras saturadas abaixo dos 10% de calorias diárias, significando também que ácidos gordos que elevam o colesterol não passem dos 7-8%, é bastante similar aos 5% estimados da ancestralidade humana.

A respeito de balanço energético, há também a recomendação para aumentar o gasto energético através de actividade física em vez de redução voluntária do consumo energético como meio preferencial de manter a saúde e composição corporal adequada – novamente combina perfeitamente com o passado evolucionário. [tabela [19]]

Para terminar, canibalismo no paleolítico [20]. Escavações na Gruta de Gough, Cheddar Gorge (Somerset), UK, revelaram ossos humanos intensivamente processados misturados com restos abundantes de grandes mamíferos e uma grande variedade de ferramentas de corte (sílex) ossos, hastes ou cornos de animais, e artefactos de marfim.

Datação radiométrica (carbono) determina que os restos humanos foram depositados durante um série de ocupações à cerca de 14.700 anos atrás. Observa-se claras evidências de escarnação (separar carne do osso), desarticulação, mastigação, esmagamento de ossos, e quebra de ossos para extrair medula.

Observa-se também marcas de dentes humanos em muitos dos crânios, evidências claras de canibalismo [20]. Estas evidências têm paralelo com outros locais na Europa central e Ocidental, o que sugere que canibalismo durante essa fase da evolução humana do paleolítico fazia parte da dieta humana.

Conclusão: tem sido promovida uma dieta que nenhum humano consumiu no paleolítico, e em toda a evolução hominídia.

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  1. SB Eaton, SB Eaton III and MJ Konner. Paleolithic nutrition revisited: A twelve-year retrospective on its nature and implications. European Journal of Clinical Nutrition (1997) 51, 207±216
  2. Rauma AL, Torronen R, Hanninen O, Verhagen H & Mykkanen H (1995): Antioxidant status in long term adherents to a strict uncooked vegan diet. Am. J. Clin. Nutr. 62, 1221-1227.
  3. Steinmetz KA & Potter JD (1991): Vegetables, fruit and cancer. I. Epidemiology. Cancer Causes Control 2, 325-357.
  4. Block G, Patterson B & Subar A (1992): Fruit, vegetables, and cancer prevention: a review of the epidemiological evidence. Nutr. Cancer 18, 1-29.
  5. Ames BN, Gold LS & Willett WC (1995): The causes and prevention of cancer. Proc. Natl. Acad. Sci. 92, 5258-5265.
  6. Neil Mann. Dietary lean red meat and human evolution. Eur J Nutr 39 : 71–79 (2000)
  7. Naughton JM, O’Dea K, Sinclair AJ (1986) Animal foods in traditional Australian Aboriginal diets: polyunsaturated and low in fat. Lipids 21: 684–690
  8. O’Dea K (1991) Traditional diet and food preferences of Australian Aboriginal hunter-gatherers. Phil Trans. R. Soc. Lond 334: 233–241
  9. O’Dea K, Naughton JM, Sinclair AJ, Rabuco L, Smith RM (1987) Lifestyle change and nutritional status in Kimberley Aborigines. Aust Aboriginal Stud 1: 46–51
  10. Eaton SB (1992): Humans, lipids and evolution. Lipids 27, 814-820.
  11. Sinclair AJ, O’Dea K, Dunstan G, Ireland PD & Niall M (1987): Effects on plasma lipids and fatty acid composition of very low fat diet enriched with fish or kangaroo meat. Lipids 22, 523-529.
  12. O’Dea K, Traianedes K, Chisholm K, Leyden H & Sinclair AJ (1990): Cholesterol-lowering effect of a low-fat diet containing lean beef is reversed by the addition of beef fat. Am. J. Clin. Nutr. 52, 491-494
  13. Simopoulos. Evolutionary aspects of diet, essential fatty acids and cardiovascular disease. European Heart Journal Supplements (2001) 3 (Supplement D), D8–D21
  14. Warinner, Hendy J, Speller C, Cappellini E. Direct evidence of milk consumption from ancient human dental calculus. Sci Rep. 2014 Nov 27;4:7104
  15. Bello SM, Saladié P, Cáceres I, Rodríguez-Hidalgo A, Parfitt SA. Upper Palaeolithic ritualistic cannibalism at Gough’s Cave (Somerset, UK): The human remains from head to toe. J Hum Evol. 2015 May;82:170-89