Tudo sobre o excesso de treino (overtraining)

Tudo sobre o excesso de treino (overtraining)A prática regular de exercício acarreta adaptações fisiológicas benéficas ao organismo.

As principais mudanças dependem do tipo de exercício realizado, e são elas: aumento do consumo máximo de oxigénio, diminuição da frequência cardíaca em repouso e sub-máxima, aumento da força muscular, aumento do débito cardíaco máximo e sub-máximo e modulação da actividade das enzimas do metabolismo aeróbico e anaeróbico (Maglischo, 1999).

Estas adaptações fisiológicas estão associadas à menor prevalência de doenças crónico-degenerativas, como a diabetes mellitus, hipertensão arterial, hipercolesterolemia, entre outras (ACSM, 2000). No entanto, quando a prática de exercícios é mal orientada, o praticante pode desenvolver condições indesejadas, tal como a síndrome do overtraining.

A síndrome do overtraining é uma condição complexa, caracterizada por um conjunto de sinais e sintomas, que surgem em resposta a um planeamento inadequado do treino desportivo.

Esta síndrome é frequentemente visível em atletas que cumprem um programa de treino mal planeado, caracterizado por grandes volumes e/ou altas intensidades, sem um período de recuperação adequado (Budgett, 1990), podendo ser potencializada por factores stressantes psico-sociais, calendário desportivo atribulado, treino monótono, dieta inadequada e muitos outros factores não necessariamente relacionados com o treino (Budgett, 1998).

O principal sintoma do excesso de treino é a queda persistente do desempenho mesmo após um período de treino leve, ou de descanso total, sendo que o desequilíbrio entre o treino e a recuperação pode levar à fadiga crónica, dores musculares, perda de peso, sono inadequado, alterações no estado de humor e doenças frequentes, principalmente infecções do trato respiratório superior (Mackinnon, 1996).

O tratamento para síndrome do overtraining é feito por meio da interrupção do treino, pausa essa que pode durar de semanas a meses (Lehman et al, 1993).

Apesar de bem descritos e estabelecidos, os sinais e sintomas do overtraining ainda não são suficientes para o estabelecimento de um diagnóstico padrão para a detecção da síndrome. Muitos trabalhos de literatura utilizam alterações hormonais, imunológicas, fisiológicas, hematológicas, na tentativa de detestar a síndrome. Sendo assim, este artigo propõe-se a rever as principais mudanças hormonais, imunológicas, fisiológicas, hematológicas e psicológicas presentes na síndrome do overtraining.

Alterações hormonais no overtraining

As hormonas são produzidas pelo organismo em respostas ás necessidades fisiológicas basais e a alguns estímulos externos.  Na fisiologia do exercício, estudos sobre a relação entre a libertação hormonal e desempenho, envolvem principalmente o cortisol, a testosterona e as catecolaminas.

Alterações nos níveis séricos de cortisol e testosterona podem ocorrer devido á influência do exercício agudo ou crónico. As modificações agudas nos níveis séricos de ambos, dependem da duração e intensidade do exercício. A testosterona desempenha um papel importante em muitos processos metabólicos, tal como na síntese de glicogénio muscular (Fellman e tal, 1985) e protecção contra o efeito dos glucocorticóides, aumentando a síntese de proteínas musculares.

Já o cortisol, comummente chamado de hormona do stress, promove a gliconeogénesis e a lipólise. Por essas razões, a testosterona é, em geral a hormona representativa da actividade anabólica nos tecidos, enquanto o cortisol normalmente representa o catabolismo. A razão entre os níveis plasmáticos da testosterona e cortisol em repouso, representa o equilíbrio entre o metabolismo anabólico e catabólico (Hoogeveen e tal, 1996).

Muitos dos estudos apontam alterações significativas na concentrações plasmáticas ou salivares de cortisol e testosterona, e a sua relação com a periodização do treino. Foram encontrados maiores níveis salivares de cortisol em atletas nadadoras que apresentaram overtraining em comparação às que não apresentaram, durante a temporada de treino (O´Connor e tal, 1989).

Por outro lado, não foram encontradas diferenças significativas nos níveis de cortisol plamático em nenhuma das amostras durante o acompanhamento de nadadores de elite (Hooper et al, 1993).

Outros estudos correlacionaram positivamente scores de overtraining obtidos por meio de questionários com concentração salivar de testosterona, e correlações pouco significativas com o coeficiente testosterona/cortisol salivar ou plasmático, sugerindo uma resposta individual de cada atleta a essas hormonas (Mackinnon e tal, 1997; Maso et al, 2004).

Em ciclistas que realizaram um período de treino de endurance, os níveis basais de testosterona e cortisol em resposta ao exercício agudo não apresentaram correlação com o desempenho pré e pós-treino. Houve aumento significativo do desempenho apesar da diminuição e aumento significativo dos níveis de testosterona e cortisol, respectivamente, facto não correlacionado com a síndrome do overtraining (Hoogeveen et al, 1996).

As principais catecolaminas analisadas pela maioria dos estudos, são a noradrenalina e adrenalina. No quadro de síndrome do overtraining, ocorre frequentemente aumento na concentração plasmática de noradrenalina, acompanhado pela queda da sua concentração urinária basal de catecolaminas durante o período nocturno reflecte a actividade intrínseca do sistema nervoso simpático.

Poucos estudos relatam alterações significativas nas concentrações plasmáticas de adrenalina. Foi encontrada uma correlação positiva entre o aumento de concentração de adrenalina e o aumento da carga de treino da semana anterior ao teste de sangue, sugerindo que a manutenção desse aumento de carga poderia levar ao overtraining (Hooper et al, 1995).

Alterações imunológicas no overtraining

Se desconfia que sofre de excesso de treino, pondere afastar-se dos treinos por algum tempo.

Actualmente, sabe-se que o exercício actua sobre a actividade do sistema imunológico, modulando a resposta dos seus componentes. Tal modulação, é independente da intensidade e do volume do exercício, e é caracterizada pela diminuição de células imunocompetentes no sangue periférico e da sua actuação no organismo (Mackinnon, 1998).

Em geral, a análise da contagem de células totais e dos níveis de leucócitos em atletas que apresentam a síndrome do overtraining, não mostra alterações significativamente relevantes, apesar de existir uma tendência ao aumento dos níveis plasmáticos, principalmente de neutrófilos, acompanhando a carga de treino.

Na maioria dos casos, este aumento é transitório, retornando aos níveis normais com a diminuição da intensidade do treino.

Considerando-se estudos sobre overtraining e padrão de resposta imunológica, a proliferação de linfócitos, secreção de imunoglubolinas e níveis de glutamina plasmática não servem como diagnóstico do overtraining, nem como explicação para a maior susceptibilidade a infecções nos períodos em que o atleta apresenta overtraining (Hooper et al, 1995; Mackinnon et al, 1996; Mackinnon et al, 1997; Gabril e tal, 1998).

Alterações fisiológicas e hematológicas no overtraining

A análise de parâmetros fisiológicos tais como a pressão arterial, frequência cardíaca, concentração de lactato e níveis plasmáticos da enzima creatina cinase, parece ter pouca relevância na detecção da síndrome do overtraining, assim como parâmetros hematológicos como quantidade de hemoglobina no sangue, hematócrito e ferritina sérica.

Alguns estudos mostraram pouca ou nenhuma diferença significativa de vários parâmetros, principalmente os fisiológicos, entre atletas que apresentaram a síndrome e aqueles que não apresentaram (Lehmann et al, 1991; Verde e tal, 1992; Hooper et al, 1995).

Já para os parâmetros hematológicos, a intensificação do treino ocasiona a queda dos níveis de eritrócitos e de hemoglobina ainda dentro dos níveis clínicos considerados normais, muito provavelmente devido á expansão do plasma sanguíneo em resposta ao treino. Pode ocorrer também aumento do volume celular médio dos eritrócitos, devido ao turnover mais acelerado das células (Mackinnin et al, 1997).

Avaliação de stressores psicossociais no overtraining

Os questionários psicossociais são frequentemente utilizados como medida indirecta para detecção do overtraining, uma vez que os stressores psicilógicos podem estar relacionados ao desenvolvimento da síndrome. Conflitos com treinadores, com a equipa e medo de competições, são alguns exemplos, assim como más noites de sono, relacionamentos familiares e sociais problemáticos, estudos e outras ocupações (Hawley et al, 2003).

Das ferramentas de avaliação psicológica, a mais utilizada para detecção da síndrome do overtraining é o POMS (The profile of Mood States). Este questionário avalia o perfil de humor, analisando parâmetros de tensão-ansiedade, depressão, raiva, vigor, fadiga, confusão e humor total. Atletas com a síndrome apresentam altos valores de distúrbios no humor total, depressão, tensão e queda nos valores de rigor (Morgan e tal, 1987; Hooper e tal, 1995).

Raiva, vigor e fadiga também foram correlacionados com volume de treino aumentado (Pierce, 2002) e elevação da concentração da testosterona salivar (Maso e tal, 2004). Vale a pena lembrar que o POMS não serve como diagnóstico da síndrome do overtraining, mas é um método válido para a detecção de mudanças do estado de humor consistentes com a condição de overtraining.

Além do POMS, estudos sobre overtraining em atletas, incluem normalmente, relatórios individuais diários do volume de treino (distância percorrida no caso de nadadores ou corredores, por exemplo), tempo de preparação física, e uma estimativa subjectiva da intensidade de treino do dia, classificada numa escala de sete pontos, sendo que “1” corresponde a “muito, muito fácil” e “7” a “muito, muito difícil” (Hooper e tal, 1995; Mackinnon e tal, 1997).

Testes como POMS, questionários e relatórios subjectivos, têm apresentado bons resultados no auxilio da detecção precoce da síndrome do overtraining, apesar de serem classificados com métodos indirectos.

Conclusões

A síndrome do overtraining, frequentemente observada em atletas que cumprem um programa de treino mal planeado, pode ser definida como um conjunto de sinais e sintomas em resposta ao desequilíbrio entre os períodos de treino e recuperação.

Não se pode ainda afirmar a existência de um parâmetro directo para o diagnóstico da síndrome do overtrainig: Há uma tendência de que, em alguns estudos, a alteração na concentração de noradrenalina urinária esteja relacionada com a síndrome.

Para além disso, a utilização de questionários para avaliação do perfil psicológico e de relatórios subjectivos diários, é uma ferramenta importante para avaliar o equilíbrio entre carga de treino e recuperação, e a sua relação com o estado de overtraining.

Entretanto, como na maioria dos estudos o overtraining é induzido experimentalmente, essa situação na reflecte necessariamente uma situação de síndrome real, que normalmente também é causada por factores como stress psicológico, nutrição inadequada, factores ambientais e períodos de pós-infecção.

Sendo assim, pode-se concluir que a melhor forma de tratamento do overtraining é a prevenção. Um profissional da área de Educação Física, capacitado para planear ciclos de treino adequados, é fundamental nessa prevenção.

Para além disso, o auxílio de uma equipa multidisciplinar de fisiologistas, fisioterapeutas, nutricionistas e médicos é de grande importância para o acompanhamento individual dos atletas, na tentativa de aliar o treino com bons resultados e saúde.

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