Os Suplementos Alimentares e a Acne

De etiologia complexa, a acne é uma doença da pele que afeta a quase totalidade dos adolescentes, com uma incidência que pode chegar aos 95%.

Esta condição parece associar-se ao aumento dos níveis de androgénios na puberdade, o qual promove o aumento do tamanho das glândulas sebáceas e, consequentemente, a produção de sebo.1

No entanto, a acne também afeta uma percentagem significativa dos adultos, em incidências variáveis.

Um estudo conduzido no norte de Portugal detetou esta condição em 61,5% de uma amostra constituída por portugueses com idades compreendidas entre os 20 e 60 anos,2 e a prevalência de acne nesta faixa etária parece estar a aumentar.3

Ao longo das últimas décadas, tem vindo a surgir evidência que associa o consumo de determinados tipos de suplementos alimentares na patogénese da acne,4 que poderá assumir formas mais graves nos adolescentes e adultos jovens com maior predisposição para sofrer desta condição.1

De acordo com um Inquérito conduzido a nível nacional, 16% dos adolescentes e 29,2% dos adultos portugueses ingerem suplementos, sendo mais expressivo o consumo de vitaminas, minerais, e de proteína whey.5

Relativamente aos que frequentam os ginásios, a prevalência é de aproximadamente 43,8%, sendo os suplementos de proteína e os de vitaminas e minerais os mais populares.6

Cerca de 66% dos desportistas portugueses também são consumidores habituais, com maior preferência pelos suplementos de vitaminas e minerais, bebidas desportivas e de proteína.7

Suplementos associados ao agravamento da acne

Proteína Whey (soro de leite)

Alguns trabalhos recentes descrevem uma dose-resposta entre o consumo de lacticínios e o surgimento ou agravamento da acne.8-10

A proteína whey, ou proteína do soro de leite, é um derivado do leite, mais precisamente um subproduto da produção do queijo, e o seu consumo também tem sido associado ao surgimento e exacerbação da acne.11-13

Vários casos de estudo reportaram uma maior prevalência e/ou agravamento da acne em consumidores de proteína whey, tendo-se observado uma melhoria da sintomatologia após a descontinuação da toma deste suplemento.11-13

Pontes Tde, et al. (2013) conduziram um estudo observacional, no qual participaram 30 jovens adultos (18-45 anos), os quais se suplementaram com proteína whey durante 2 meses. Durante esse período, a presença de lesões acneiformes de grau I e II da escala de Leeds, passou de uns iniciais 56,7% para 100% dos voluntários, e a prevalência de lesões de grau III, que era nula no início do estudo, aumentou para os 30% no final do mesmo.14

Isto poderá dever-se à sua grande capacidade que a proteína whey tem de promover a libertação de insulina após a sua ingestão, possivelmente por conter proporções elevadas dos aminoácidos leucina, valina, lisina e isoleucina, e ainda pela possível presença de peptídeos bioativos que promovem a libertação de incretinas.15

De facto, a proteína whey parece ser a principal responsável pelas propriedades insulinotrópicas do leite15, e a sua inclusão numa refeição que contenha hidratos de carbono promove uma maior secreção de insulina e uma descida mais precoce dos níveis de glicemia pós-pandrial.16

A insulina induz a secreção de IGF-1 no fígado e os níveis elevados de ambas as hormonas estão associadas a uma maior produção de sebo e têm uma influência de negativa no crescimento epitelial folicular, e no processo de queratinização da pele, o que poderá promover ou agravar a acne.17

Vitaminas B6 e B12

Foram reportados vários casos de estudo em que a suplementação com doses elevadas de vitaminas B6 e B12 se fez acompanhar pelo surgimento de acne, que parece afetar sobretudo os indivíduos do sexo feminino.18 19

Veraldi et al. (2018) descreveram a eclosão de acne em 5 mulheres com idades compreendidas entre os 21 e 37 anos, que coincidiu com o início da administração oral ou intramuscular de vitamina B12, sendo que a acne ficou resolvida dentro de um período de 3 a 6 semanas após a interrupção da sua toma.18

No geral, nos restantes casos de estudo publicados até agora, a cessação da suplementação com estas vitaminas também conduziu a melhorias significativas desta condição dermatológica.18,19

Embora tenham sido propostas variadas teorias, até à data ainda não foi esclarecida a patogénese da acne induzida pelas vitaminas B6 e B12.4

Contaminação com esteroides androgénicos anabolizantes

Estima-se que entre 12 a 58% dos suplementos estejam contaminados com esteroides androgénicos anabolizantes e outras substâncias proibidas pela WADA,20 sendo que a prevalência parece ser maior em suplementos específicos para a perda de peso e aumento de massa muscular.2122

Em alguns casos, a adição de compostos da classe dos esteroides anabolizantes é claramente intencional e inclusive figura no rótulo do suplemento.22

Esta é uma área cinzenta do mundo dos suplementos alimentares onde frequentemente encontramos químicos derivados da testosterona que foram desenvolvidos pela indústria farmacêutica há várias décadas e que mais tarde foram descontinuados, e outros criados recentemente, sendo que grande parte nunca chegou sequer a ser testada em seres humanos.21,22

De referir que o consumo desta classe de compostos se associada não apenas à acne, mas também a uma série de outras patologias.22

A etiologia da acne causada por estas substâncias será similar à da ingestão de doses elevadas de testosterona e esteroides anabolizantes androgénicos, que promove a hipertrofia das glândulas sebáceas, aumento da concentração de lípidos e da população de Propionibacteria acne na superfície da pele.23

Creatina

A creatina é um dos suplementos mais estudados até à data e com maior evidência relativamente às suas propriedades ergogénicas,24 sendo coincidentemente um dos mais consumidos por atletas e frequentadores de ginásios.6,7

A literatura existente suporta a possibilidade de a creatina atuar como um agente promotor da acne. Num estudo no qual participaram jogadores de rugby jovens (18-19 anos) como voluntários, registaram-se aumentos de 56% nos níveis de DHT após uma semana de suplementação com 25g de creatina por dia, e de 40% após uma semana adicional com 5g/dia.25

Estão ainda por elucidar os mecanismos que expliquem este aumento dos níveis de DHT, mas foi sugerido que a suplementação com creatina promove uma maior conversão de testosterona em DHT,25 o qual terá um nível de potência androgenética superior ao da testosterona e também está envolvido na patogénese da acne.26 27

Suplementos associados à melhoria da acne

Seria redutor considerar que a ingestão de suplementos alimentares apenas pode agravar a acne. Na verdade, também já foram publicados trabalhos que sugerem que alguns suplementos poderão ser úteis no tratamento ou alívio da acne

O exemplo mais curioso poderá ser o da suplementação com lactoferrina, uma das proteínas presentes no soro do leite, a qual possui propriedades anti-inflamatórias.28 Vários trabalhos demonstraram melhorias do quadro da acne após a suplementação com lactoferrina, inclusive em adolescentes e adultos jovens, existindo uma revisão sistemática na qual se concluiu que os estudos realizados até à data retornaram resultados promissores.28

Dentro desta categoria de suplementos que poderão beneficiar a acne temos também o extrato de Berberis vulgaris L.,29 os ácidos gordos ómega EPA e DHA,30,31, o Zinco,32 a vitamina A (retinol),33 os probióticos,34 o canabidiol,35 as vitaminas D,36,37 B3 (niacina),38,39 e B5 (ácido pantoténico).40

Conclusão

Pese a evidência relativa a esta matéria ser de baixo nível, por se basear quase em exclusivo em casos de estudo e estudos observacionais, podemos considerar que o consumo de alguns tipos de suplementos alimentares, inclusive aqueles contendo proteína whey, vitamina B6 e B12, cujo consumo se encontra relativamente vulgarizado entre os adolescentes e jovens adultos, pode causar ou agravar a acne.

Caso esta condição surja ou seja agravada pouco após o início da toma de um determinado suplemento alimentar, e se a descontinuação da sua toma revelar uma melhoria significativa da acne, será razoável assumir que a toma desse suplemento poderá ser um dos principais contribuidores para esta doença.

Neste contexto, é importante que os profissionais de saúde, inclusive aqueles que trabalham na área do desporto, tenham conhecimento desta realidade, para melhor poderem acompanhar e aconselhar os seus atletas que sofram desta patologia.

Por último, nunca é demais repetir que os alimentos, minimamente processados, e não os suplementos, devem constituir a base de um regime alimentar adequado e que a prescrição de suplementos alimentares deve ser bem ponderada e individualizada.

Clique para mostrar/ocultar as referências

  1. Common JEA, Barker JN, van Steensel MAM. What does acne genetics teach us about disease pathogenesis? Br J Dermatol. 2019;181(4):665-676.
  2. Semedo D, Ladeiro F, Ruivo M, et al. Adult Acne: Prevalence and Portrayal in Primary Healthcare Patients, in the Greater Porto Area, Portugal. Acta Med Port. 2016;29(9):507-513.
  3. Skroza N, Tolino E, Mambrin A, et al. Adult Acne Versus Adolescent Acne: A Retrospective Study of 1,167 Patients. J Clin Aesthet Dermatol. 2018;11(1):21-25.
  4. Zamil DH, Perez-Sanchez A, Katta R. Acne related to dietary supplements. Dermatol Online J. 2020;26(8).
  5. Lopes C, Torres D, Oliveira A, et al. Inquérito Alimentar Nacional e de Atividade Física IAN-AF 2015-2016: relatório de resultados. 2017.
  6. Ruano J, Teixeira VH. Prevalence of dietary supplement use by gym members in Portugal and associated factors. Journal of the International Society of Sports Nutrition. 2020;17(1):11.
  7. Sousa M, Fernandes MJ, Moreira P, Teixeira VH. Nutritional supplements usage by Portuguese athletes. Int J Vitam Nutr Res. 2013;83(1):48-58.
  8. Dai R, Hua W, Chen W, Xiong L, Li L. The effect of milk consumption on acne: a meta-analysis of observational studies. J Eur Acad Dermatol Venereol. 2018;32(12):2244-2253.
  9. Aghasi M, Golzarand M, Shab-Bidar S, Aminianfar A, Omidian M, Taheri F. Dairy intake and acne development: A meta-analysis of observational studies. Clin Nutr. 2019;38(3):1067-1075.
  10. Juhl CR, Bergholdt HKM, Miller IM, Jemec GBE, Kanters JK, Ellervik C. Dairy Intake and Acne Vulgaris: A Systematic Review and Meta-Analysis of 78,529 Children, Adolescents, and Young Adults. Nutrients. 2018;10(8).
  11. Cengiz FP, Cevirgen Cemil B, Emiroglu N, Gulsel Bahali A, Onsun N. Acne located on the trunk, whey protein supplementation: Is there any association? Health Promot Perspect. 2017;7(2):106-108.
  12. Simonart T. Acne and whey protein supplementation among bodybuilders. Dermatology. 2012;225(3):256-258.
  13. Silverberg NB. Whey protein precipitating moderate to severe acne flares in 5 teenaged athletes. Cutis. 2012;90(2):70-72.
  14. Pontes Tde C, Fernandes Filho GM, Trindade Ade S, Sobral Filho JF. Incidence of acne vulgaris in young adult users of protein-calorie supplements in the city of João Pessoa–PB. An Bras Dermatol. 2013;88(6):907-912.
  15. Nilsson M, Stenberg M, Frid AH, Holst JJ, Björck IM. Glycemia and insulinemia in healthy subjects after lactose-equivalent meals of milk and other food proteins: the role of plasma amino acids and incretins. Am J Clin Nutr. 2004;80(5):1246-1253.
  16. Gunnerud UJ, Ostman EM, Björck IM. Effects of whey proteins on glycaemia and insulinaemia to an oral glucose load in healthy adults; a dose-response study. Eur J Clin Nutr. 2013;67(7):749-753.
  17. Melnik BC, Schmitz G. Role of insulin, insulin-like growth factor-1, hyperglycaemic food and milk consumption in the pathogenesis of acne vulgaris. Exp Dermatol. 2009;18(10):833-841.
  18. Veraldi S, Benardon S, Diani M, Barbareschi M. Acneiform eruptions caused by vitamin B12: A report of five cases and review of the literature. J Cosmet Dermatol. 2018;17(1):112-115.
  19. Aalfs AS, Scholvinck LH, Horváth B. Acneiform eruption in a 5-year-old due to vitamin B12 supplementation. Eur J Dermatol. 2013;23(5):726-727.
  20. Martínez-Sanz JM, Sospedra I, Ortiz CM, Baladía E, Gil-Izquierdo A, Ortiz-Moncada R. Intended or Unintended Doping? A Review of the Presence of Doping Substances in Dietary Supplements Used in Sports. Nutrients. 2017;9(10).
  21. Mathews NM. Prohibited Contaminants in Dietary Supplements. Sports Health. 2018;10(1):19-30.
  22. Tucker J, Fischer T, Upjohn L, Mazzera D, Kumar M. Unapproved Pharmaceutical Ingredients Included in Dietary Supplements Associated With US Food and Drug Administration Warnings. JAMA Netw Open. 2018;1(6):e183337.
  23. Scott MJ, 3rd, Scott AM. Effects of anabolic-androgenic steroids on the pilosebaceous unit. Cutis. 1992;50(2):113-116.
  24. Kreider RB, Kalman DS, Antonio J, et al. International Society of Sports Nutrition position stand: safety and efficacy of creatine supplementation in exercise, sport, and medicine. Journal of the International Society of Sports Nutrition. 2017;14:18-18.
  25. van der Merwe J, Brooks NE, Myburgh KH. Three weeks of creatine monohydrate supplementation affects dihydrotestosterone to testosterone ratio in college-aged rugby players. Clin J Sport Med. 2009;19(5):399-404.
  26. Gollnick HP. From new findings in acne pathogenesis to new approaches in treatment. J Eur Acad Dermatol Venereol. 2015;29 Suppl 5:1-7.
  27. Elsaie ML. Hormonal treatment of acne vulgaris: an update. Clin Cosmet Investig Dermatol. 2016;9:241-248.
  28. Hassoun LA, Sivamani RK. A systematic review of lactoferrin use in dermatology. Crit Rev Food Sci Nutr. 2017;57(17):3632-3639.
  29. Fouladi RF. Aqueous extract of dried fruit of Berberis vulgaris L. in acne vulgaris, a clinical trial. J Diet Suppl. 2012;9(4):253-261.
  30. Jung JY, Kwon HH, Hong JS, et al. Effect of dietary supplementation with omega-3 fatty acid and gamma-linolenic acid on acne vulgaris: a randomised, double-blind, controlled trial. Acta Derm Venereol. 2014;94(5):521-525.
  31. Khayef G, Young J, Burns-Whitmore B, Spalding T. Effects of fish oil supplementation on inflammatory acne. Lipids Health Dis. 2012;11:165.
  32. Cervantes J, Eber AE, Perper M, Nascimento VM, Nouri K, Keri JE. The role of zinc in the treatment of acne: A review of the literature. Dermatol Ther. 2018;31(1).
  33. Kligman AM, Mills OH, Jr., Leyden JJ, Gross PR, Allen HB, Rudolph RI. Oral vitamin A in acne vulgaris. Preliminary report. Int J Dermatol. 1981;20(4):278-285.
  34. Salem I, Ramser A, Isham N, Ghannoum MA. The Gut Microbiome as a Major Regulator of the Gut-Skin Axis. Front Microbiol. 2018;9:1459-1459.
  35. Oláh A, Tóth BI, Borbíró I, et al. Cannabidiol exerts sebostatic and antiinflammatory effects on human sebocytes. J Clin Invest. 2014;124(9):3713-3724.
  36. Navarro-Triviño FJ, Arias-Santiago S, Gilaberte-Calzada Y. Vitamin D and the Skin: A Review for Dermatologists. Actas Dermosifiliogr. 2019;110(4):262-272.
  37. Ahmed Mohamed A, Salah Ahmed EM, Abdel-Aziz RTA, et al. The impact of active vitamin D administration on the clinical outcomes of acne vulgaris. J Dermatolog Treat. 2020:1-6.
  38. Markovics A, Tóth KF, Sós KE, et al. Nicotinic acid suppresses sebaceous lipogenesis of human sebocytes via activating hydroxycarboxylic acid receptor 2 (HCA(2) ). J Cell Mol Med. 2019;23(9):6203-6214.
  39. Gehring W. Nicotinic acid/niacinamide and the skin. J Cosmet Dermatol. 2004;3(2):88-93.
  40. Yang M, Moclair B, Hatcher V, et al. A randomized, double-blind, placebo-controlled study of a novel pantothenic Acid-based dietary supplement in subjects with mild to moderate facial acne. Dermatol Ther (Heidelb). 2014;4(1):93-101.

Nutricionista (CP: 4100N) no Moreirense Futebol Clube. É licenciado em nutrição pela FCNAUP, e é também doutorando em Ciências do Consumo Alimentar e Nutrição, na mesma faculdade.

Deixe um comentário