Quanta proteína é possível digerir por refeição?

Quanta proteína é possível digerir por refeição?

No mundo da musculação e do desporto em geral, existe a ideia de que não é possível absorver mais de 30-50 gramas de proteína por refeição e muitos assumem que o corpo realmente não tem capacidade para digerir uma quantidade superior a essa.

Por alguma razão estranha, afirma-se com frequência que o valor limite de absorção de proteína para o ser humano encontra-se algures entre os 30-50 gramas para todos os seres humanos, independentemente da massa corporal.

Se não considera já estranha essa suposição, permita-me elucida-lo sobre as razões pela qual o corpo consegue lidar com uma maior quantidade de proteína do que a maioria das pessoas pensam.

Fases iniciais da digestão da proteína

Antes de começarmos a falar de quantidades de proteína e de valores para você implementar na sua dieta, vale a pena adquirir os conhecimentos básicos de como a proteína é realmente metabolizada pelo corpo humano.

Em primeiro lugar, e como provavelmente já sabe, o processo de digestão tem início na boca, que é o principal responsável pela mastigação e degradação dos alimentos. Depois dos seus dentes incisivos e molares terem feito o trabalho duro, os pedaços mastigados de alimentos/nutrientes (e também de proteína) deslocam-se em direção ao estômago onde se inicia o processo de digestão.

O estômago por sua vez contém suco gástrico, que é composto por ácido clorídrico, cloreto de sódio e cloreto de potássio. Esses ácidos iniciam a degradação química (desnaturação) de proteína e ativam as enzimas digestivas necessárias para darem continuidade ao processo de digestão.

Uma das enzimas chave na digestão da proteína é a pepsina, e essa é a razão pela qual alguns naturopatas afirmam que aqueles que ingerem grandes quantidades de proteína deveriam suplementar-se com esta enzima, mas isso ainda está para ser investigado em termos de eficiência.

Fazes tardias da digestão da proteína

Continuando em frente, depois da proteína ter sido suficientemente desnaturada, os polipeptídeos seguem em direção ao duodeno, que é o segmento anterior do intestino delgado.

O duodeno é o local onde ocorre a maior parte da digestão da proteína e absorção dos aminoácidos. A mistura de enzimas digestivas presente no intestino delgado serve para dividir ainda mais os polipéptidos em aminoácidos isolados e quantidades mínimas de di e tripéptidos.

Já próximo do final da digestão da proteína, os aminoácidos isolados estão destinados a entrar nas células intestinais ou a passar para a circulação através do fígado.

Uma vez no fígado, os aminoácidos são finalmente sujeitos aos caminhos metabólicos adequados de acordo com as necessidades energéticas do organismo (ex: utilizados para a síntese de proteína, usados como substrato para a gluconeogénesis, etc).

Quanta proteína é possível digerir por refeição?

Quanta proteína é possível digerir por refeição?
Não existe um valor fixo de proteína que o ser humano é capaz de absorver.

Uma vez que já analisamos os aspetos básicos da digestão da proteína, vamos analisar de forma pragmática as teoria e a investigação por trás da quantidade de proteína que pode ser digerida de cada vez.

Deve ser notado que a questão aqui é saber qual a quantidade que pode ser digerida, o que não é mesma coisa que perguntar qual é a quantidade que pode ser usada para a síntese de proteína muscular; a digestão e a síntese de proteína muscular não são termos intercambiáveis tal como algumas pessoas parecem acreditar.

Assim sendo, uma maior ingestão de proteína não significa necessariamente uma maior síntese de proteína e maiores ganhos de massa muscular.

Regressando ao tópico, a ideia de que o corpo humanos tem uma espécie de “limite de proteína” na marca dos 30-50 gramas, não parece ser válida nem do ponto de vista evolucionário nem bioquímico.

Essencialmente, a suposição de que o seu corpo não consegue absorver mais do que 30-50 gramas de proteína de cada vez é a mesma coisa que sugerir que você irá excretar pelas fezes qualquer quantidade de proteína acima desses valores.

Por isso, em essência, em vez do seu corpo digerir a proteína em “excesso”, ela segue algum tipo de atalho pelo estritamente intricado processo digestivo que descrevemos neste artigo e enviar a proteína em excesso para o seu cólon. Se isso fosse verdade, de um ponto de vista fisiológico, estaríamos tramados. Para não mencionar que se isso fosse verdade, as pessoas passariam a vida no WC.

Para além disso, não existe praticamente nenhuma literatura que confirme que o corpo não consegue absorver mais do que 30-50 gramas de proteína num determinado período de tempo. De fato, a literatura suporta a noção de que o corpo pode de fato digerir uma grande quantidade; só que demora mais tempo do que ingerir uma dose mais reduzida (1).

Basicamente, em vez de apenas redirecionar o excesso de proteína para o seu cólon, o rácio de digestão compensa a redução do fornecimento de nutrientes a serem enviados para a parte anterior do intestino delgado (ex: o estômago atrasa os processos gástricos).

Para os mais extremistas que gostam de propor circunstâncias absurdas, tal como ingerir 200 gramas de proteína de cada vez, será que o corpo seria capaz de a digerir toda? Bem, francamente, sim, mas nem toda essa proteína iria ser “bem utilizada” por assim dizer.

A proteína também pode ser convertida em gordura, mas as vias bioquímicas para esse processo são ineficientes, por isso, a importância desta conversão é trivial. O mais provável é que a maior parte da proteína que não seja usada para síntese de proteína muscular ou outros processos anabólicos e seja sim sujeita à gluconeogénesis e posteriormente armazenada em forma de glicogénio.

Portanto, aqui tem, pode ingerir uma boa quantidade de proteína em qualquer altura, mas se pretende utilizar esses aminoácidos de forma eficiente, não seja demasiado extremo em relação às quantidades.

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