Prevenindo a cárie dentária

Neste artigo, iremos falar do Sir Edward Mellanby, o homem que descobriu a vitamina D. Juntamente com a sua esposa, a Dra. May Mellanby, identificou os factores dietéticos que controlam a formação e reparação dos dentes e ossos.

Ele também identificou a causa do raquitismo (deficiência de vitamina D) e os efeitos do ácido fítico na absorção dos minerais. É verdadeiramente um grande homem! Esta pesquisa começou em 1910 e continuou até a década de 1940.

O que ele descobriu sobre a formação dos dentes e dos ossos é profundo, surpreendentemente simples e largamente esquecido. Lembro-me de ir ao dentista quando era criança. Ele disse-me que tinha bons dentes. Eu informei-o que eu tentava comer bem e ficar afastado dos doces. Ele explicou-me que eu tinha bons dentes por causa da minha genética, não por causa da minha dieta. Naquela altura fiquei céptico , mas agora percebo o quão ignorante esse homem era.

A estrutura do dente é determinada durante o crescimento. Os dentes bem formados são altamente resistentes à cárie, enquanto os dentes mal formados são propensos ao desenvolvimento de cáries. Os Drs. Mellanby demonstraram isso, mostrando uma forte correlação entre os defeitos do esmalte dos dentes e cáries em crianças britânicas. O gráfico a seguir é extraído de vários estudos que compilou no livro “Nutrition and Disease“ (1934). “Hipoplástico” refere-se ao esmalte que estão mal formados ao nível microscópico.

Estrutura do dente e prevalência de cavidades.

O gráfico é confuso, por isso não se preocupe se estiver a ter dificuldades em interpretá-lo. Se olhar para a barra azul que representa as crianças com dentes bem formados, pode ver que 77% deles não têm cáries, e apenas 7,5% têm cáries graves (um “3” no eixo X). Olhando para a barra verde, apenas 6% das crianças com uma má estrutura de esmalte estão isentas de cáries, enquanto 74% sofrem de cárie severa. A estrutura do esmalte está muito fortemente relacionada com a prevalência de cáries.

O que determina a estrutura do esmalte durante o crescimento?

Os Drs. Mellanby identificaram três factores dominantes:

  • O conteúdo de minerais da dieta.
  • O teor de vitaminas liposolúveis da dieta, principalmente de vitamina D.
  • A disponibilidade dos minerais para absorção, determinada em grande parte pelo conteúdo de ácido fítico da dieta.

Os dentes e os ossos são constituídos por uma proteína mineralizada. A vitamina D influencia a qualidade da proteína que é formada. Para essa proteína mineralizar, a dieta deve conter minerais suficientes, principalmente cálcio e fósforo. A vitamina D permite que o sistema digestivo absorva esses minerais, mas só pode absorvê-los se eles não estiverem ligados ao ácido fítico.

O ácido fítico é um anti-nutriente encontrado principalmente em grãos não fermentados, como os cereais. Assim, o processo depende de conseguir os minerais (minerais suficientes na dieta e nível reduzido de ácido fítico) e colocá-los no lugar certo (vitaminas liposolúveis).

Uma formação óssea e dentária perfeita ocorre apenas numa dieta que é suficiente em minerais, vitaminas solúveis em gordura e pobre em ácido fítico.

Os Drs. Mellanby utilizaram cães nas suas experiências, o que se constatou serem um bom modelo para a formação dos dentes em humanos por uma razão que eu irei explicar mais tarde. Retirado de “Nutrition and Disease”:

Assim sendo, se os cachorros em crescimento receberem uma quantidade limitada de leite separado [magro] juntamente com cereais, carnes magras, sumo de laranja e fermento (ou seja, uma dieta contendo o valor energético suficiente e também proteínas suficientes, carboidratos, vitaminas B e C, e sais),  o resultado serão dentes incorrectamente formados. Se for adicionada alguma fonte rica em vitamina D, tal como o óleo de fígado de bacalhau ou de gema de ovo, a estrutura dos dentes irá melhorar muito, enquanto a adição de óleos como o azeite… deixa os dentes tão mal formados como quando recebem só a dieta basal…

…Se, quando o nível vitamina D é deficiente, aumentarmos a parte de cereais na dieta, ou se o gérmen de trigo [rico em ácido fítico] substitui a farinha branca, ou, ainda, se a aveia [alto teor de ácido fítico] substitui a farinha branca , em seguida, os dentes tendem a ser piores em estrutura, mas se, sob essas condições, o consumo de cálcio aumenta, então a calcificação [a deposição de cálcio nos dentes] é melhorada.

Inicialmente, outros investigadores contestaram os resultados dos Mellanbys porque não foram capazes de replicar os resultados em ratos. Acontece que, os ratos produzem no intestino delgado uma enzima que degrada o ácido fítico, a fitase, de forma que podem extrair minerais a partir de cereais não fermentados de forma mais eficiente do que os cães.

Os seres humanos também produzem fitase, mas em níveis tão baixos que não degradam o ácido fítico de forma significativa. O intestino delgado dos ratos tem cerca de 30 vezes a catividade da fitase do intestino delgado humano, mais uma vez demonstrando que os humanos não estão bem adaptados para comerem cereais. A nossa capacidade de extrair minerais a partir de sementes é comparável à dos cães, o que mostra que os resultados dos Mellanbys são aplicáveis aos humanos.

Os Drs. Mellanby descobriram que os mesmos três factores também determinam a qualidade óssea em cães, que eu irei discutir noutro artigo.

Há alguma coisa que alguém com um esmalte completamente formado possa fazer para prevenir a cárie dentária?

Os Drs. Mellanby demonstraram (desta vez em seres humanos) que  a cárie dentária não só pode ser prevenida por uma boa dieta, como pode ser quase completamente revertida, mesmo que as cáries já estejam presentes. O Dr. Weston Price também usou um método semelhante para reverter a deterioração dos dentes. Irei discutir isso num dos meus próximos artigos.

Autor: Stephan Guyenet

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