É possível obter a quantidade recomendada de vitaminas e minerais só a partir de alimentos?

Várias autoridades da saúde, inclusive nutricionistas, defendem que a adoção de um regime alimentar “equilibrado”, que inclua uma diversidade de apenas alimentos, fornece as quantidades adequadas de todos os micronutrientes.

Nesse contexto, e apoiados nessa crença, manifestam-se contra o consumo de suplementos alimentares, mais especificamente de multivitamínico-minerais, como forma de colmatar possíveis carências de micronutrientes.

No entanto, tem vindo a acumular-se literatura que sugere o oposto.

Ingestão de Apenas Alimentos

Os autores de um estudo publicado em 2006 procuraram determinar se a ingestão de apenas alimentos providencia 100% da quantidade recomendada de vitaminas e minerais.

Para o efeito, analisaram 20 dietas, provenientes do menu de 14 atletas e 6 indivíduos sedentários, os quais procuravam melhorar a qualidade da ingestão de micronutrientes a partir de alimentos.

Mais precisamente, determinaram se essas dietas, compostas exclusivamente por alimentos, forneciam a dose diária recomendada de 10 vitaminas e 7 minerais, nomeadamente dr vitaminas A, D, E, K, B1, B2, B3, B6, B9, e B12, e os minerais iodo, potássio, cálcio, magnésio, fósforo, zinco e selénio.

Para surpresa dos investigadores, nenhuma das dietas analisadas providenciou 100% da quantidade recomendada dos 17 micronutrientes.

Usando como referência os valores da Dose Diária Recomendada, todos os voluntários apresentaram 3 a 15 deficiências, num total de 40,5% de défice de micronutrientes.

Em 2010, publicou-se um outro estudo que teve como objetivo caracterizar a composição nutricional de menus diários sugeridos de 4 dietas bem conhecidas: a dieta de Atkins, South Beach, Best Life, e DASH.

Nesse sentido, o investigador procurou determinar se, para a ingestão energética recomendada, os menus de cada dieta providenciavam 100% da dose diária recomendada (DDR) de 27 micronutrientes.

Em termos de resultados, verificou-se que nenhum dos regimes alimentares providenciou 100% da quantidade recomendada das 27 vitaminas e minerais.

  • Atkins: forneceu 1786 Kcal, 44,44% suficiente, com 100% da DDR para 12 micronutrientes.
  • Best Life: continha 1793 Kcal, 55,56% suficiente, com 100% da DDR para 15 micronutrientes.
  • DASH: fornecia 2217 Kcal, 51,85% suficiente, com 100% da DDR para 14 micronutrientes.
  • South Beach: continha 1197 Kcal, 22,22% suficiente, com 100% da DDR apenas para 6 micronutrientes.

Verificou-se que os valores de seis micronutrientes se apresentaram a níveis inferiores às DDR nas 4 dietas, nomeadamente a vitamina B7 (biotina), vitamina D, Vitamina E, o Crómio, Iodo, e o Molibdénio.

O autor concluiu:

Este estudo revela uma prevalência significativa de défices de micronutrientes em dietas famosas.

Um indivíduo que siga uma dieta popular contendo apenas alimentos tem uma elevada probabilidade de sofrer défices de micronutrientes.

Este investigador refere ainda que, atualmente, o Journal of the American Medical Association recomenda que todos os adultos se suplementem diariamente com um multivitamínico-mineral.

A Nível Nacional

Já foram conduzidos pelo menos dois estudos que procuraram caracterizar a adequação nutricional dos portugueses, inclusive a sua ingestão de vitaminas e minerais.

O Inquérito Alimentar Nacional e de Atividade Física (IAN-AF), conduzido entre 2015 e 2016, e que incluiu um número expressivo de voluntários, revelou inadequações significativas para a ingestão de 7 micronutrientes, nomeadamente para as Vitaminas A, B2, B6, B9, C, cálcio e o ferro.

Neste caso, os micronutrientes que apresentaram percentagens de inadequação mais elevadas foram a vitamina B9 (folato) e o cálcio.

Publicado em 2019, o estudo Alimentação e Estilos de Vida da População Portuguesa, conduzido pela Sociedade Portuguesa de Ciências da Nutrição e Alimentação (SPCNA), entre outras variáveis, caracterizou a ingestão nutricional de 3529 portugueses.

Num trabalho posterior, que analisou dados desse estudo, verificou-se que a percentagem de portugueses que atinge as quantidades recomendadas de vitamina D e E é muito baixa.

Analisando a tabela acima, é também evidente que uma percentagem significativa não consegue obter as quantidades adequadas de um elevado número de micronutrientes.

Tendo em conta estes dados, talvez esteja na altura de aceitar que uma alimentação baseada em apenas alimentos, mesmo que supostamente “equilibrada”, poderá não proporcionar as quantidades adequadas de todos os micronutrientes, e que a suplementação com o clássico suplemento multivitamínico-mineral poderá ser recomendável para a população geral.

Nutricionista (CP: 4100N), licenciado em nutrição pela FCNAUP. È também doutorando em Ciências do Consumo Alimentar e Nutrição, na mesma faculdade.

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