Os analgésicos prejudicam o crescimento muscular?

Os analgésicos de venda livre são a forma mais comum de aliviar a dor e sensação de rigidez muscular que se manifesta nas 24 – 48 horas após um treino intenso.

Mas o debate sobre o impacto que esses analgésicos de origem farmacêutica podem ter no desenvolvimento muscular ainda não está resolvido e contínua nos dias de hoje.

Por um lado, temos provas científicas de que os analgésicos reduzem o nível de síntese de proteína depois dos treinos. E por outro lado, estudos que mostram que na verdade, a toma de analgésicos durante vários meses acelera os ganhos de força e de massa muscular.

Os analgésicos promovem ou prejudicam os progressos no ginásio?

Pensa-se que os analgésicos podem afetar os ganhos de massa muscular limitando o aumento da síntese de proteína que ocorre normalmente depois da realização dos treinos com pesos.

Em termos simples, a quantidade de massa muscular de um determinado músculo aumenta quando a quantidade de proteína sintetizada é superior à quantidade de proteína degradada.

Pense nos seus músculos como sendo uma conta bancária. A entrada de dinheiro representa a síntese de proteína. A saída de dinheiro representa a degradação ou perda de proteína.

Quando há mais dinheiro a entrar na sua conta do que a sair, irá acabar por ficar com uma conta bancária com mais dinheiro. De forma semelhante, quando a síntese de proteína é superior à proteína degradada, irá acabar por ficar com músculos maiores.

Embora existam poucos estudos que associem o uso de analgésicos a uma redução da síntese de proteína (1), vou analisar a seguir um estudo em particular (2).

Neste estudo, os investigadores recrutaram um grupo de homens com uma idade média de 25 anos que posteriormente repartiram por três grupos. Todos os grupos realizaram 10-14 séries de 10 repetições excêntricas de extensões de pernas.

  • Após completarem o treino, os membros do grupo nº 1 receberam a dose máxima de ibuprofeno de venda livre, isto é 1200 miligramas por dia.
  • Os membros do grupo nº 2, receberam 4000 miligramas por dia de acetaminofeno.
  • Os membros do 3º grupo receberam um placebo, isto é, uma substância que não contém ingredientes ativos.

Quando as amostras musculares foram analisadas 24 horas depois da realização do exercício, o aumento da síntese de proteína muscular que normalmente se vê depois do treino com pesos, foi mais reduzido nos voluntários que tomaram os analgésicos.

Poderá ver esse efeito na figura abaixo, que mostra que a síntese de proteína muscular antes (barras brancas) e depois (brarras negras) do exercício (ACET = grupo do acetaminofeno; IBU= grupo do ibuprofeno; PLA= grupo do placebo).

Os analgésicos impedem a hipertrofia muscular?

Por outras palavras, parece que os analgésicos podem limitar a capacidade dos seus músculos sintetizarem proteína e de se repararem depois dos treinos. E se os analgésicos inibirem a recuperação, então também têm potencial para prejudicar o desenvolvimento muscular.

No entanto, este foi um estudo de curta duração que apenas analisou a síntese de proteína nos voluntários que usaram analgésicos apenas durante 24 horas.

E embora este tipo de investigações seja útil quando se trata de gerar ideias e teorias acerca do que pode acontecer ao longo de um período prolongado de tempo, é apenas uma peça do puzzle.

Um outro estudo de duração mais longa, desta vez de três meses , mostrou que o uso de uma dose diária de analgésicos na verdade acelera os ganhos de força e de massa muscular (3).

Neste estudo, os investigadores acompanharam 36 homens e mulheres com idades entre os 60 e 78 anos, que foram divididos de forma aleatória em três grupos, um grupo tomou acetaminofeno (paracetamol), outro tomou ibuprofeno e o terceiro grupo ingeriu um placebo. As drogas foram ingeridas à quantidade diária recomendada.

Para surpresa da equipa, uma análise de amostras de tecidos musculares retiradas antes e depois do programa de treino, revelou que aqueles que tomaram os analgésicos ganharam mais massa muscular que o grupo placebo.

Os analgésicos prejudicam o crescimento muscular?
Quer o uso de analgésicos anti-inflamatórios prejudiquem ou não a hipertrofia muscular, estes têm alguns aspetos negativos que deverá ter em conta.

No entanto, e antes de ir já a correr à sua farmácia mais próxima adquirir ibuprofeno “anabolizante”, tenha em conta que o estudo foi realizado com indivíduos idosos, com 60 a 70 anos de idade, sendo que o analgésico poderá ter reduzido as dores nas articulações, permitido assim aos idosos a realização de treinos mais intensos e produtivos.

Não podemos assumir que os resultados serão idênticos em indivíduos mais jovens, com 20, 30 ou 40 anos de idade.

O último estudo que quero analisar foi realizado por um grupo de investigadores canadenses que examinaram o impacto de uma dose moderada de ibuprofeno (400 miligramas por dia) nos ganhos de força e de massa muscular (4).

Para a realização do estudo foram recrutados 20 homens e 6 mulheres (com aproximadamente 24 anos de idade) que treinaram o bíceps direito e o esquerdo em dias alternados (6 séries de 4-10 repetições), 5 dias por semana durante 6 semanas.

Eles receberam uma dose diária de 400 miligramas de ibuprofeno imediatamente após terem treinado o seu braço direito e esquerdo, e um placebo após terem treinado o braço oposto no dia a seguir.

O ibuprofeno auxiliou ou prejudicou os ganhos de massa muscular?

Na verdade não fez nem uma coisa nem outra. A espessura do músculo bíceps do braço do ibuprofeno passou de 3.63 para 3.92. Isto é um aumento de 8%, que não foi diferente do braço do placebo.

Os ganhos de força muscular foram praticamente os mesmos no grupo do ibuprofeno e do placebo, com ambos os grupos a obterem uma média de 20% de aumento da força.

Os investigadores afirmaram:

Uma dose moderada de ibuprofeno ingerida após sessões repetidas de treino de musculação não prejudica a hipertrofia muscular ou a força e não afeta os níveis de dor muscular pós-treino.

A explicação para a ausência de efeitos do ibuprofeno, positivos ou negativos, deve-se provavelmente à dosagem usada.

A pesquisa anterior realizada pelo professor Trappe usou doses mais elevadas (1200 miligramas de ibuprofeno por dia). Este estudo canadiano usou apenas um terço dessa quantidade (400 miligramas por dia).

Aspetos negativos derivados do uso de analgésicos anti-inflamatórios

Independentemente do seu impacto no desenvolvimento muscular, o consumo de analgésicos anti-inflamatórios não esteróides (AINEs ou NSAIDs em inglês) tem alguns aspetos negativos:

Em primeiro lugar, os AINEs parecem ter um efeito negativo na saúde do tecido conjuntivo. Um estudo mostra que o uso de AINEs (2 x 100 miligramas de indometacina todos os dias durante 7 dias) aboliu o aumento adaptativo da síntese de colagênio no tendão patelar que normalmente ocorre após a realização de exercício (5).

Ao ser usado durante períodos prolongados de tempo, os AINEs podem aumentar o seu risco de desenvolvimento de lesões, através do enfraquecimento do tecido conjuntivo ou limitando a sua capacidade para este se adaptar ao exercício.

Estes fármacos exercem os seus efeitos inibindo a produção de prostaglandinas, que estão envolvidas na dor. No entanto, essas mesmas prostaglandinas também estão envolvidas na criação de colagênio  que é o bloco de construção básico da maioria dos tecidos (6).

O efeito dos AINEs na síntese de colagênio ajuda a explicar porque motivo ficou comprovado que estes tornam mais lenta a recuperação e cura de músculos, tendões, ligamentos e ossos (7).

Também foram realizadas algumas pesquisas interessantes em animais que mostram que a inflamação desempenha um papel vital na recuperação do tecido muscular danificado (8). A presença de células inflamatórias está associada a níveis mais elevados da hormona IGF-1, que aumenta a velocidade da regeneração muscular.

E já se sabe há algum tempo que o excesso de medicação anti-inflamatória, tal como a cortisona diminui a velocidade da cura de lesões.

Este estudo pode-nos indicar porquê: A hormona IGF-1 e outros materiais inflamatórios libertados pelas células na verdade auxiliam no processo de cura. Para que as feridas possam ser curadas, nós precisamos de inflamação controlada.

Conclusão

O nível a que o uso prolongado de analgésicos afeta o desenvolvimento muscular ao longo de muitas semanas e meses ainda se encontra aberto a debate. No entanto, existem provas de que as doses elevadas de analgésicos podem extinguir o “fogo” que dá início ao desenvolvimento muscular após o exercício.

É pouco provável que o uso de doses moderadas de analgésicos venha a suprimir completamente os seus ganhos de força e de massa muscular, mas são certamente algo que não se deve usar com demasiada frequência.

O consumo de doses elevadas durante demasiado tempo é algo que a longo prazo poderá vir a prejudicar os seus ganhos de força e massa muscular.

Como nota final, caso deseje evitar os analgésicos de farmácia e optar uma alternativa mais natural, poderá experimentar o gengibre, que também já provou em alguns estudos, aliviar a dor pós-treino.

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