O paradoxo francês

Segundo a Organização Mundial da Saúde, 82 em cada 100.000 homens franceses entre as idades de 35 e 74 morreram em consequência de doenças cardiovasculares (DCV), no ano de 2000.

Nesse mesmo ano, nos EUA, 216 de cada 100.000 homens entre as mesmas idades os sucumbiram à mesma doença.

De acordo com a Organização para Alimentação e Agricultura das Nações Unidas, durante aproximadamente o mesmo período de tempo, o francês médio comeu um pouco mais de gordura total e quase três vezes mais gordura de origem animal que o americano médio.

As gorduras animais foram provenientes do leite, banha, carnes vermelhas, peixes e aves, e contribuíram para uma muito maior ingestão de gordura saturada na França em geral. Este fenómeno tem sido designado por “paradoxo francês”, o paradoxo é que é suposto a gordura saturada provocar doenças cardiovasculares.

Os investigadores têm vindo a lutar para identificar o factor que está a proteger os corações franceses do ataque tóxico da gordura saturada. O que poderia possivelmente estar a impedir que o lodo amanteigado que circula através das suas artérias os mate rapidamente? Uma hipótese é que o vinho é de protector. Embora na verdade, em média os franceses modernos não bebam muito mais álcool do que os americanos, o vinho contém uma série de moléculas que são potencialmente protectoras.

Uma dessas substâncias que tem atraído muita atenção, é o resveratrol, um activador SIRT1, uma enzima deacetylase que está envolvida na resistência ao stress e regulação do período de vida. Mas eis que, verifica-se que não há resveratrol suficiente no vinho para este ser útil. Agora, os investigadores estão a virar a sua atenção para uma classe de moléculas chamadas de procianidinas, mas eu suspeito que em relação a esta também não irão encontrar nada. A molécula de protecção é, provavelmente, o etanol, mas ninguém quer ouvir isso, porque não resolve o paradoxo.

Sendo uma pessoa de descendência francesa que passou bastante tempo em França, a noção de um paradoxo francês é um insulto. Isso implica que os franceses estão a seguir uma dieta pouco saudável, mas são de alguma forma, milagrosamente protegidos por um composto que estão a ingerir por acidente.

Qualquer pessoa francesa irá dizer-lhe, não existe nenhum paradoxo. Quando você segue o compromisso de procurar os produtos mais frescos, os ingredientes mais deliciosos disponíveis e os cozinha você mesmo, a sua dieta será mais saudável do que se você contar as gramas disto ou daquilo no seu jantar.

Para além disso. Os americanos consomem quase o dobro da quantidade de açúcar do que a pessoa média francesa. Acho isso surpreendente, dada a grande quantidade de açúcar que eu vi nas mesas francesas, mas acho que isso demonstra a enorme quantidade de açúcar que se consome nos EUA. Muito do qual provavelmente vem do xarope de milho rico em frutose na soda. Vou guardar o meu discurso sobre isso para outra altura.

Outra coisa que chama a atenção sobre os hábitos de comida francesa é a ausência de lanches. As refeições na França tendem a ser bem definidas, e o acto de petiscar é desprezado. Acho que isso é provavelmente essencial para a manutenção adequada da sensibilidade à insulina em face dos (deliciosos) carboidratos refinados, como as baguetes.

E, finalmente, os franceses apreciam mais os seus alimentos mais do que a maioria dos países. Eu não subestimaria o valor disso para a saúde e o bem-estar geral.

Então, qual era o paradoxo de novo? Não me consigo lembrar. Talvez uma explicação mais parcimoniosa dos dados seja que afinal a gordura saturada não é assim tão má, e que apreciar a comida saudável e limitar o consumo de açúcar é a verdadeira receita para a saúde.

Autor: Stephan Guyenet

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