O Papel da nutrição nas doenças auto-imunes

O Papel da nutrição nas doenças auto-imunesUma doença auto-imune (DA) surge quando o sistema imunitário perde a capacidade de distinguir proteínas do próprio hospedeiro (Self) de proteínas estranhas (Non Self).

Esta perda de tolerância resulta na agressão a tecidos próprios. A patologia que daí resulta depende dos tecidos afetados, como se pode observar na Tabela 1.

Parece ser consensual, que mais de 80 doenças podem ser classificadas como auto-imunes5. Assim, apesar de individualmente cada uma destas patologias apresentar uma prevalência relativamente baixa, colectivamente afectam 5 a 8% da população de países desenvolvidos, em especial mulheres.

Tabela 1. Algumas doenças auto-imunes

E deverá ser referido que estas estimativas poderão estar a subestimar a prevalência real, pois existem suspeitas que outras patologias também têm como uma das causas a auto-imunidade, nomeadamente fibromialgia, síndrome da fadiga crónica, anorexia nervosa e bulimia, cistite intersticial, síndrome de Tourette, epilepsia, narcolepsia, neuromielite óptica, osteoartrose, hipoparatiroidismo, sarcoidose e autismo, entre outras.

Causas de Auto-Imunidade

É geralmente aceite que a maioria das doenças auto-imunes tem um risco imunogenético. Os genes que parecem conferir maior risco para o desenvolvimento da auto-imunidade são os genes do complexo major de histocompatibilidade (MHC) em especial os de classe II, que estão envolvidos na apresentação de antigénios3 aos linfócitos TCD4+.

Não obstante, para que a autoimunidade ocorra, não basta um indivíduo apresentar haplotipos HLA (combinação de genes HLA – antigénios leucocitários humanos – herdados dos 2 cromossomas em cada célula) susceptíveis, como o demonstra a baixa concordância (~30%) na incidência de várias doenças auto-imunes entre gémeos monozigóticos. É, assim, necessária a presença de um gatilho iniciador.

Diversos gatilhos têm sido apontados, designadamente:

  • Alguns fármacos ou os seus metabolitos;
  • Metais pesados (p.e. mercúrio);
  • Alguns químicos;
  • Silicone em implantes mamários;
  • Tabaco;
  • Estrogénios (o que explicaria, pelo menos, em parte, porque é que a prevalência de doenças auto-imunes é superior em mulheres);
  • Stress psicológico;
  • Alguns tumores (raro);
  • Microrganismos e vírus (refira-se que a colonização gastrointestinal por microrganismos patogénicos pode, em parte, ser modulada pela Nutrição);
  • Hiperpermeabilidade intestinal. Este fenómeno também pode ser modulado nutricionalmente, eliminando ou reduzindo:
  • Alimentos com glúten (cevada, centeio, aveia e, principalmente, trigo);
  • Algumas lectinas, presentes nos cereais com glúten (em especial trigo), milho e leguminosas (podendo estas últimas ser reduzidas pela cozedura);
  • Glicoalcalóides alfa solanina e alfa chaconina existentes na batata inglesa (que não parecem ser afectados pela confecção);
  • Glicoalcalóide alfa tomatina, presente no tomate, em especial no tomate pouco amadurecido. Refira- se que este glicoalcalóide também tem acção adjuvante (que não tendo um efeito antigénico per si, aumenta a resposta a um imunogénio, o que pode ser outro mecanismo a implicar este glicoalcalóide na auto-imunidade);
  • SaponinasA existentes nas leguminosas (que poderão ser diminuídas pela cozedura e fermentação). Refira-se que estas saponinas também têm acção adjuvante;
  • SaponinasA presentes nos rebentos de alfalfa96. Refira-se que a Lcanavanina (existente nestes rebentos) causa sintomas de lúpus eritematoso sistêmico em primatas e já foi relatado, pelo menos, um caso em humanos. Não obstante, a Lcanavanina poderá ser reduzida pelo calor intenso (acima de 100ºC);
  • Possivelmente saponinasA presentes na quinoa (que também têm acção adjuvante) e amaranto. É importante relatar que o conteúdo em saponinas da quinoa e amaranto pode ser reduzido por métodos de processamento;
  • Pimentos;
  • Álcool;
  • Alergénios alimentares.

E é possível diminuir a permeabilidade intestinal com recurso a probióticos, prebióticos, triglicéridos de cadeia média, ácidos gordos ómega-3, glutamina, zinco e, possivelmente, vitamina D.

Nota: A relação entre lectinas, saponinas, glicoalcaloides, e auto-imunidade é uma teoria do professor Loren Cordain, da Colorado State University, que gentilmente partilhou estas informações com o autor do artigo.

Factores Nutricionais per si

Relativamente aos factores nutricionais, dependendo da abordagem do investigador, o mesmo factor pode ser considerado protector e iniciador (ver Tabelas 2 e 3).

Tabela 2. Factores nutricionais protectores da auto-imunidade
Tabela 3. Gatilhos nutricionais da auto-imunidade

Além dos factores elencados nas Tabelas 2 e 3, existe um acumular de evidências que implicam o consumo de cereais com glúten e de lacticínios (em especial de origem bovina) na etiologia de diversas doenças auto-imunes.

Glúten e Auto-Imunidade

O glúten inclui dois grandes tipos de proteínas: glutelinas (existentes no centeio, na cevada e no trigo), gluteninas, sendo este grupo o mais estudado, e prolaminas, que são proteínas solúveis em álcool e que de acordo com o cereal em causa, se podem dividir em:

  • Gliadinas: trigo
  • Secalinas: centeio
  • Hordeinas: cevada
  • Aveninas: aveia

Estas prolaminas podem ainda subdividir-se. Por exemplo, a gliadina divide-se em α, β, γ e ω , sendo todas estas fracções tóxicas para pacientes com doença celíaca (DC), embora a fracção mais tóxica pareça ser a α-gliadina.

Tanto as prolaminas (em especial as gliadinas, secalinas e hordeinas), como as gluteninas têm um elevado conteúdo de prolina e glutamina, pelo que são resistentes à completa proteólise pelas enzimas gástricas, pancreáticas e da borda em escova (no intestino) e, ao que parece esta resistência à proteólise ocorre em todos os seres humanos, embora possa ser maior em indivíduos com DC activa.

Ora, tal pode resultar na acumulação, no intestino delgado, de fracções peptídicas (algumas de grande dimensão – até 50 aminoácidos), com grande conteúdo em prolina e glutamina, que, em indivíduos geneticamente predispostos (HLA-DQ2 e HLA-DQ8), poderá causar uma resposta autoimune (possivelmente por mimetismo molecular), resultando na inflamação e atrofia das vilosidades da mucosa do intestino delgado, bem como hiperplasia da cripta, causando diversos sintomas e aumentando o risco de inúmeras patologias e podendo inclusive causar a morte (em especial em crianças desfavorecidas de países tropicais subdesenvolvidos) onde a terapia globalmente aceite reside numa dieta isenta de glúten.

Evite os antinutrientes e toxinas dos cereais.

Refira-se que, apesar de várias revisões relativamente recentes apenas implicarem na DC os péptidos derivados das prolaminas (em especial o péptido LQLQPFPQPQLPYPQPQLPYPQPQLPQPQPF derivado da α2-gliadina), pensasse que a glutenina também esteja implicada na DC, bem como na dermatite herpetiforme (doença dermatológica de origem autoimune, associada à doença celíaca e muitas vezes designada de manifestação dermatológica da DC e cuja terapia é idêntica à da DC, ou seja, uma dieta isenta de glúten).

Nas últimas 4 décadas, inúmeros trabalhos têm revelado que o glúten poderá estar implicado em outras doenças auto-imunes. De facto, foi constatado que pacientes com DC têm um risco aumentado de outras doenças auto-imunes, tais como diabetes tipo 1 (DT1), doenças auto-imunes da tiróide, síndrome de Sjögrene nefropatia IgA, entre outras.

Além disso, há alguns trabalhos a implicarem directamente o glúten (ou algumas das suas fracções proteicas, como as gliadinas) na artrite reumatóide, síndrome de Sjögren, esclerose múltipla, psoríase, nefropatia IgA67 e DT1. Um possível mecanismo é o mimetismo molecular, embora não possamos ignorar o facto das prolaminas aumentarem a permeabilidade intestinal, que, como já foi referido, está implicada na etiologia de diversas doenças auto-imunes.

Lacticínios e Auto-Imunidade

Diabetes Tipo 1

Vários estudos epidemiológicos têm associado o consumo de leite bovino à diabetes tipo 1 (DT1) em especial quando a exposição a este alimento se dá nos primeiros meses de vida.

A evidência parece ser consistente, uma vez que várias revisões da literatura confirmaram esta relação (em especial quando a exposição é precoce e quando os indivíduos apresentam os haplotipos HLA susceptíveis). Foram propostos alguns mecanismos para explicar esta associação, nomeadamente:

• Beta-Lactoglobulina (B-Lg): poderá existir mimetismo molecular entre péptidos da B-Lg (proteína presente no soro de leite bovino, mas não existente no soro de leite humano) e de proteínas próprias.

De facto, existe homologia estrutural entre a B-Lg e a proteína humana glicodelina. Ora, o consumo precoce de leite bovino (numa altura da vida em que a permeabilidade intestinal está aumentada) poderia resultar na produção de anticorpos contra esta proteína humana, que é responsável pela modulação dos linfócitos T e como tal, em crianças geneticamente predispostas, levar à auto-imunidade.

• Albumina Sérica Bovina (ASB): também no caso desta proteína (ASB) presente no soro de leite bovino, poderá haver mimetismo molecular entre sequências desta e de aminoácidos de proteínas próprias.

De referir que num trabalho de 1998, verificou-se que 100%  dos pacientes, recentemente diagnosticados com DT1, apresentavam anti-corpos contra ASB, em que a maioria estava direccionada para um determinado péptido da ASB (ASB150 -ABBOS), o que foi confirmado em 2003 por Pérez- Bravo et al. (havendo correlação muito forte com os genótipos HLADQ) e por Banwell et al. Refira-se que, recentemente, Luopaja¨rvi et al. seguiram um grupo de crianças com predisposição genética para desenvolver DT1 e verificaram existir na infância uma maior resposta imunitária humoral para várias proteínas existentes no leite bovino (e presentes nas fórmulas infantis lácteas, incluindo a ASB) no subgrupo que mais tarde veio a desenvolver a doença, embora também neste caso, não poderá ser ignorada a possibilidade da verdadeira causa para este aumento da resposta imunitária humoral a estes antigénios dietéticos ser a hiperpermeabilidade intestinal.

• Imunização à insulina bovina presente no leite de vaca: (que apenas difere da insulina humana em 3 aminoácidos) em indivíduos com os haplotipos HLA susceptíveis. Este mecanismo é mais provável em caso de hiperpermeabilidade intestinal (esta é mais frequente em crianças com menos de 1 ano, em especial crianças com um período muito curto de amamentação). Refira-se que a resposta humoral à insulina bovina, poderá ser aumentada por enterovírus.

• Péptido Beta-Casomorfina 7: resultante da proteólise gastrointestinal da variante A1 da betacaseína bovina (fracção da caseína produzida pelo alelo da betacaseína A1, uma forma alternativa do alelo normal – beta-caseína A2). Este péptido, ao ser agonista dos receptores μ-opióides, poderá suprimir os linfócitos intestinais, diminuindo, assim, os mecanismos de defesa relativamente a enterovírus, que já foram implicados nesta patologia.

Mycobacterium avium subespécie paratuberculosis: sobrevive à pasteurização e já foi implicado no desenvolvimento da DT1, em indivíduos geneticamente predispostos.

Em 2005, foi finalmente conduzido o primeiro estudo, em crianças com os haplotipos susceptíveis, que demonstrou existir menor número de auto-anticorpos, que conduzem à doença, em crianças alimentadas por uma fórmula com caseína totalmente hidrolizada, comparativamente a uma fórmula normal também baseada em leite bovino .

Esclerose Múltipla

Vários estudos epidemiológicos estabeleceram uma correlação muito forte entre consumo de leite e prevalência de Esclerose Múltipla (EM). Foi proposto que a implicação do leite na EM, resulte do mimetismo molecular entre a glicoproteína de oligodendrócito (MOG) e a butirofilina (representa 20 a 40% do total de proteína da membrana dos glóbulos de gordura do leite).

De facto, num trabalho recente efectuado no Brasil, determinou-se a produção de autoanticorpos séricos para sequência da MOG92-106 em 54 indivíduos saudáveis e 26 pacientes com EM e concluiu-se que a maioria dos pacientes com EM apresentou, em relação ao grupo controle, aumento na produção de autocanticorpo isotipo IgG para a sequência encefalitogênica MOG92-106.

É, também, possível que a ASB esteja envolvida, pois o epitopo ASB193 da ASB induziu encefalomielite autoimune experimental em ratos, existe homologia estrutural entre a ASB193 e uma sequência de aminoácidos da proteína básica de mielina e foi observado230,248 que pacientes com EM tinham maior resposta proliferativa dos linfócitos T à ASB193.

Artrite Reumatóide

Em modelos animais de artrite reumatóide (AR), esta patologia é induzida em cães, ratos e coelhos através da injecção de ASB na membrana sinovial2. Refira-se que num trabalho de 1998, foi demonstrado que 53 de 93 pacientes com AR apresentavam anticorpos IgG a algumas proteínas do leite2, o que pode ser relevante, uma vez que foi verificado que existe mimetismo molecular entre um péptido da ASB e do colagénio humano tipo 12.

De facto, alguns trabalhos demonstraram que a eliminação de lacticínios das dietas de pacientes com AR melhorava os sintomas e que a reintrodução exacerbava a patologia2 e dietas elementares, bem como dietas sem glúten e sem lacticínios, já mostraram ter resultados positivos nesta patologia.

Também aqui é preciso relembrar que estes trabalhos devem ser analisados, considerando a hiperpermeabilidade intestinal como uma outra explicação.

Outras doenças auto-imunes

O consumo de leite bovino está, ainda, implicado na doença de Crohn, síndrome Sjögren, doença de Behçet, nefropatia IgA e doença celíaca (DC).

Relativamente à DC, recentemente verificou-se uma resposta inflamatória na mucosa de pacientes diagnosticados com esta doença, após a introdução de caseínas de leite bovino por via rectal.

Além disso, estas proteínas são reconhecidas pelos anticorpos IgA anti-gliadina, o que, juntamente com o facto de as proteínas do glúten se encontrarem no leite de mães que ingerem fontes de glúten, levou a que se pensasse que poderiam existir vestígios de epítopos de proteínas do glúten no leite bovino, como resultado da alimentação dada aos animais.

No entanto, Dekking et al. não detectaram quaisquer vestígios dessas proteínas no leite de vacas, cuja alimentação tinha uma grande quantidade de trigo.

Esta questão parece ter sido resolvida muito recentemente por Cabrera-Chávez e de la Barca, que verificaram que anticorpos IgA do soro de pacientes com DC reconheceram não apenas as gliadinas, como também as caseínas alfa e beta. Refira-se, ainda, que estes investigadores chamam a atenção para o facto de haver homologia estrutural entre péptidos das gliadinas e da caseína beta, em especial relativamente à sequência de aminoácidos LQLQPFPQPQLPYPQPQLPYPQP QLPYPQPQPF.

Conclusão

Apesar de terem aqui sido apresentados múltiplos trabalhos a indicarem que a Nutrição tem um papel fundamental na etiologia de diversas doenças auto-imunes, revisões conservadoras apenas mencionam de forma breve o papel do glúten na doença celíaca e dermatite herpetiforme e o papel dos antioxidantes e dos ácidos gordos ómega-3 em algumas doenças auto-imunes.

Além disso, diversas meta-análises referem que a evidência existente não é considerada suficiente para que se retirem conclusões, como o demonstra duas recentes revisões sobre o papel da Nutrição na esclerose múltipla e na artrite reumatóide.

Assim, apesar de ser extremamente importante e urgente que se realizem mais trabalhos com modelos animais e, em especial, estudos dietéticos de intervenção, para que possamos obter resultados conclusivos, o médico e nutricionista, ao serem confrontados com casos clínicos reais, têm que tomar uma decisão, que pode ser esperar até que se chegue a um consenso ou avaliar os riscos e caso estes sejam baixos, agir, com base na evidência já existente, mesmo que esta seja limitada.

Fonte!

Siga-nos através das redes sociais.

Deixe uma resposta