O Mito da Glutamina

De volta a 1994, desenvolvemos um produto para a EAS chamado GKG – estávamos a promover os “volumizadores celulares”, um termo do qual fomos pioneiros em 1993 – e fomos dos primeiros a dar destaque à ligação entre a alpha-ketoglutarate (AKG) e a L-Glutamina.

Nesse ano escrevi um artigo na agora desaparecida Muscle Media 2000, exultando os benefícios volumizadores das células da AKG e Glutamina, como o conteúdo de glutamina no músculo servia como um sensor do anabolismo proteico muscular, e como o treino intenso PODE reduzir o conteúdo de glutamina e aumentar as necessidades corporais de glutamina. A mensagem era clara, Preserve a glutamina muscular e salve os seus músculos.

Nesse tempo, ainda não existiam estudos que avaliassem o impacto da suplementação com glutamina/AKG em atletas de musculação saudáveis, especialmente em relação ao aumento de massa muscular e aumento da performance. NENHUM. Se a vida tivesse sido registada numa DVR/TIVO® box, poderíamos saltar toda a publicidade, os incontáveis produtos, afirmações, publicidade, artigos, blogs e livros que entraram – e saíram – da cena da nutrição desportiva desde 1994 e passar para o último semestre de 2009. Aqui estamos nós, e aqui está o que sabemos AGORA…

O treino intenso de musculação, não parece reduzir de forma rápida ou drástica a glutamina muscular. Estamos a começar a partir do estudo mais recente – Outubro de 2009 – No que pode ser o ÚNICO estudo que mediu as mudanças dos níveis de glutamina após uma sessão de treino de musculação.

Os investigadores suecos que realizaram o estudo estão entre a elite da sua especialidade, e realizaram muitas biopsias musculares – A biopsia muscular foi INVENTADA na sua universidade.

Foi determinada a repetição máxima (1RM) na prensa de pernas a um grupo de oito atletas de musculação ou atletismo. Umas semanas mais tarde regressaram ao laboratório, realizaram um aquecimento leve numa bicicleta estática durante 10 minutos, e depois uma sessão de prensa de pernas com 4 séries de 10 reps a 80% de 1RM, com 5 minutos de descanso entre séries.

Foram retiradas amostras do sangue e do músculo (alternando entre o quadriceps esquerdo e o direito) antes (apenas do sangue), e duas horas depois durante a recuperação. As fibras musculares individuais foram separadas – fibras rápidas e fibras lentas – e analisadas em termos de conteúdo de aminoácidos livres em 4 dos oito voluntários. Os níveis de glutamina permaneceram inalterados, não se modificaram, mesmo duas horas após o treino.

O conteúdo de glutamina muscular não sofreu alterações imediatamente e uma hora após o exercício, mas duas horas após o treino, diminuiu em cerca de 30% (fibras rápidas) e 40% (fibras lentas). A MAIOR alteração apareceu no conteúdo de glutamato muscular (ácido glutámico), que decaiu por 70% nas fibras musculares rápidas.

A suplementação com glutamina não possuiu propriedades anabólicas no tecido muscular humano, A maioria dos estudos científicos em que me baseei para o meu artigo publicado na Muscle Média 200 em 1994, envolveu a administração de glutamina ou AKG de forma intravenosa. É uma boa forma de garantir a entrada no sangue – sem perdas durante a digestão e redução do metabolismo/extracção pelo intestino ou fígado.

No que pode ter sido o único estudo a verificar a influência da glutamina no anabolismo proteico muscular em pessoas saudáveis, uma infusão de aminoácidos essenciais (EAAs) com glutamina, ou quantidade equivalente de glicina, foi administrada a homens e mulheres jovens, durante um período de 14 horas enquanto dormiam.

Era um laboratório de alta tecnologia, num metabolismo de proteína muscular e biopsias musculares bem realizadas. Não foi observada uma maior estimulação da síntese de proteína muscular, ou conteúdo intramuscular de glutamina, quando a glutamina foi acrescentada aos EAAs.

A quantidade de glutamina (ou glicina) adicionada aos EAAs foi de 0.14 gramas/Kg de peso corporal. Para uma pessoa de 80 kgs, é pouco mais de  11 gramas ao longo de uma longa noite de sono. Ainda não está convencido? Continue a ler…

Mesmo nos dias de hoje, a glutamina continua a ser um dos suplementos mais populares.

A suplementação com glutamina (até hoje) falhou em proporcionar aumentos de massa muscular, força, resposta anabólica muscular ou manter massa muscular magra durante dietas, entre os atletas.

Mudanças temporárias na síntese de proteína ou picos hormonais (Como a Hormona de Crescimento ou testosterona) raramente se transferem em mudanças visíveis ao espelho, ou no suporte de agachamento.

São como a visão de uma mulher atraente num terminal de aeroporto – tem a esperança de a voltar a ver, convidá-la a sair, trocar alguns fluidos corporais, e talvez até anéis de casamento, mas as suas hipóteses são ainda mais remotas do que as de alguém conseguir encontrar Osama Bin Laden.

De volta a 2002, um estudo investigou o efeito de uma dose elevada (0.3 gramas por KG de peso corporal para uma pessoa de 80Kg) de glutamina em atletas de musculação experientes, para verificar se melhorava o desempenho no agachamento ou supino, em comparação com uma dose igual de glicona.

Os escritores da MD  Drs. José Antonio e Douglas Kalman juntamente com outros investigadores, realizaram este estudo. Não encontraram nenhuma diferença!

Um estudo realizado em 2003 verificou que, administrando 0.175 gramas de glutamina por Kg de peso corporal duas vezes por dia a wrestlers em dieta durante 12 dias, não manteve mais massa muscular nem promoveu um aumento da perda adiposa, em comparação com um placebo composto por aminoácidos livres.

Outro estudo diferente em 2003, recrutou 21 homens e 19 mulheres – todos eles atletas de musculação experientes – e colocou-os num programa de 6 semanas de treino de musculação supervisionado. Foi-lhes fornecida uma dose de glutamina de 0.9 gramas por kg de peso corporal (cerca de 45 gramas por dia, em média), ou maltodextrina imediatamente a no final do treino e antes de deitar.

A glutamina e o placebo proporcionaram as mesmas mudanças na composição corporal, força e marcadores indirectos de catabolismo muscular.

Finalmente, um estudo do laboratório do Dr. Stuart Phillips, que testou um suplemento de 9.25 gramas de EAAs mais 1 grama por kg de peso corporal de uma fonte de carboidratos (maltodextrina + açúcar) com ou sem glutamina adicionada (0.3 gramas/Kg), ingeridas após uma corrida vigorosa de ciclismo, realizada por oito atletas de ciclismo experientes.

Não se verificou uma maior síntese de proteína ou de glicogénio no grupo que recebeu a glutamina. Os investigadores verificaram que um marcador indirecto de catabolismo muscular diminuiu quando a glutamina foi administrada, no período entre os 90 – 180 minutos após o exercício.

Então porque motivo os atletas de musculação/powerlifting tomam glutamina? Mea culpa por ter contribuído para o mito da glutamina ao longo dos anos.

Autor: Anthony L. Almada

Referências:

  1. Blomstrand E and Essén-Gustavsson B. Amino Acids, 2009;37:629-36.
  2. Zachwieja J, et al. Metabolism, 2000;49:1555-60.
  3. Antonio J, et al. J Strength Cond Res, 2002;16:157-60.
  4. Finn KJ, et al. J Sports Sci Med, 2003;2:163-8.
  5. Candow DG, et al. Eur J Appl Physiol, 2001;86:142-9.
  6.  Wilkinson SB, et al. Appl Physiol Nutr Metab, 2006;31:518-29.

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