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Os nutricionistas e a bolacha Maria

bolacha mariaQualquer frequentador de ginásio já eventualmente ouviu esta expressão como forma de descredibilizar o modus operandi de um nutricionista. E porquê a bolacha Maria? Existem centenas de alimentos piores do que a bolacha Maria presentes na nossa alimentação, no entanto por ser a “melhor” (ou menos má) das bolachas, está quase sempre presente nos planos alimentares convencionais, ou não fizesse ela parte dos também eles convencionais “equivalentes” nutricionais. E esta será uma discussão interessante, pois serão equivalentes 6 bolachas Maria ou de água e sal a 1 pão ou 4 tostas? Ou 2 fatias de queijo ou fiambre serão equivalentes a ½ requeijão, a 1 ovo e a 60g de carne ou peixe? Eventualmente serão no total de calorias e no teor do seu macronutriente principal, mas para quem vê os alimentos na sua plenitude, independentemente do seu valor calórico, todas estas opções são bastante distintas entre si.

Quando olhamos para a realidade global e vemos gerações e gerações de profissionais a trabalhar da mesma forma padronizada, salta logo à vista que o problema pode estar na base. Ou seja, é deste modo que se ensinam a fazer planos alimentares, e anos e anos de conteúdos lecionados sobre as propriedades funcionais de cada alimento são no final transformadas no seu “equivalente”. E quando estamos a falar no contexto da educação alimentar para a patologia (vulgo dietoterapia), muito provavelmente as restrições alimentares são tão extensas que a melhor metodologia é esta. É provável que em situações limite de saúde, se tenha de “acertar” mesmo a dieta aos seus macronutrientes, quando o único acerto que deveria ocorrer numa situação normal de “simples” perda de massa gorda ou aumento de massa muscular, seria (ajustando logicamente às necessidades energéticas) “acertar” a dieta ao quotidiano do indivíduo e àquilo que ele se sente mais confortável a fazer. O facto de hoje em dia as faculdades terem de se assumir mais como fábricas de produção de artigos do que locais de “ensino superior”, aliado a alguma falta de supervisão e noção colectiva do que devem realmente ser prioridades desse mesmo curso superior, fazem com que a reformulação dos conteúdos das aulas esteja no último lugar das prioridades de quem ensina.

Por isso, mais do que aquilo que é ensinado nas faculdades, importa saber o que não é ensinado. E a este nível falta claramente melhorar o ensino da nutrição voltada para a prática desportiva esteja ela mais voltada para a vertente performativa ou para a vertente estética e de manipulação da composição corporal. É difícil de aceitar que as instituições continuem a apostar tão pouco na formação na área que está claramente em maior crescendo no que à empregabilidade diz respeito.

Por isso, enquanto não se reformularem planos curriculares, é perfeitamente possível que continuem a existir “nutricionistas da bolacha Maria” a contaminar o trabalho de outros que mesmo tendo feito uma deficiente formação de base, estudam e actualizam o seu conhecimento, adquirindo competências para trabalhar no mundo do desporto.

Ainda assim, por mais que o estado de coisas melhore no futuro, existirão sempre profissionais do fitness a tentar denegrir a imagem dos nutricionistas nesta área, quanto mais não seja pelo facto de agora já não poderem ser eles próprios a tratar dos planos alimentares e verem-se esvaziados numa das suas funções. É apenas um estado transitório que já foi igualmente sentido anteriormente no mundo do alto rendimento por médicos e enfermeiros/fisioterapeutas que viram o seu espaço de manobra ser reduzido com a entrada de nutricionistas nas equipas médicas. Em qualquer um dos casos existem bons e maus profissionais com mais ou menos ética, sendo que os que veem mais à frente, agradecem a colaboração e aproveitam para aprender. Os outros continuam presos ao seu medo e à sua omnipresença de conhecimentos em várias áreas e tentam uma sabotagem contínua a estes “corpos estranhos” que começam a entrar no mundo do desporto, designados de nutricionistas.

Como tal, citando uma frase icónica deixada pelo Prof. Vitor Hugo Teixeira no último congresso da AGAP (Associação de Empresas de Ginásios e Academias de Portugal):

“Nutritionists are great… Hire a great nutritionist”

Pedro Carvalho, Nutricionista | pedro.ramos.carvalho@gmail.com