Manteiga VS Margarina

Deparei-me recentemente comum estudo que é uma verdadeira gema, cortesia do blog do Dr. John Briffa. É intitulado ” Margarine Intake and Subsequent Coronary Heart Disease in Men“, conduzido pelo grupo do Dr. William P. Castelli.

Ele acompanhou os participantes do estudo Framingham Heart durante 20 anos, e registou a incidência de ataques cardíacos *. Tenha em mente que 20 anos é um período de acompanhamento invulgar.

A única coisa realmente interessante sobre este estudo é que também acompanhou o consumo de manteiga. Então é realmente um confronto sem tabus entre as duas gorduras. Aqui está um gráfico dos resultados globais, por colheres de chá de manteiga ou margarina ingeridas por dia:

A incidência de ataque cardíacos aumentou com o aumento do consumo de margarina (estatisticamente significativa) e diminuiu ligeiramente com o aumento do consumo de manteiga (estatisticamente não significativa). Isso deve ter sido uma pílula amarga de engolir para os fabricantes de margarinas, Becel, Flora e companhia

E as coisas ainda ficam mais interessantes.

Vamos-nos concentrar em algumas das características dos participantes, repartidos por consumo de margarina:

As pessoas que comeram menos margarina apresentaram a maior prevalência de intolerância à glicose (pré-diabetes), fumaram mais cigarros, beberam mais álcool, e comeram mais manteiga e gordura saturada. Essas eram as pessoas que menos se preocupavam com a sua saúde. No entanto, essas mesmas pessoas foram as que tiveram o menor número de ataques cardíacos. Imagine isso.

Os investigadores fizeram correcções tendo em conta os factores listados acima na sua avaliação da contribuição da margarina para o risco da doença, no entanto, permanece o facto de que o grupo que ingeriu a menor quantidade de margarina era o que menos se preocupava com a sua saúde. Isso afecta o risco de doença em muitos aspectos, mensuráveis ​​ou não.

Será que este estudo pode ficar ainda mais interessante?

Sim, pode. Os investigadores dividiram os dados em duas metades: os primeiros dez anos, e os 10 anos seguintes. Nos primeiros dez anos, não houve associação significativa entre a ingestão de margarina e a incidência de ataque cardíaco. Nos 10 anos seguintes, o grupo que ingeriu mais margarina sofreu mais 77% de ataques cardíacos do que o grupo que não ingeriu nenhuma:

Assim sendo, parece que a margarina demora algum tempo a aplicar a sua magia.

Eles não publicaram nenhum relatório da incidência de ataque cardíaco com o consumo de manteiga nos dois períodos. Talvez porque eles não gostaram do que viram quando analisaram os números. O que acho realmente incrível, é que nos é dito para evitarmos as gorduras lácteas com dados como estes a circular por aí. O estudo de Framingham é epidemiologia de primeira linha.

E encaixa-se perfeitamente com a maioria dos outros estudos observacionais que demonstram que a ingestão de lacticínios gordos não está associado a um aumento do risco de ataques cardíacos e de acidente vascular cerebral. Na verdade, vários estudos indicaram que as pessoas que ingerem mais lacticínios gordos têm o menor risco de sofrer de ataque cardíaco e derrames.

Vale a pena ressaltar que este estudo foi realizado a partir do final dos anos 1960 até o final de 1980. As leis de rotulagem das Gordura trans artificiais nos EUA ainda estavam atrasadas várias décadas, e as margarinas continham mais gordura trans do que nos dias de hoje. Actualmente, nos EUA, a margarina pode conter até 0,5 gramas de gordura trans por porção e ainda ser rotulada como “gordura trans 0 g”. Provavelmente, o teor elevado de gordura trans das margarinas mais velhas teve algo a ver com o resultado deste estudo.

No entanto, isso não faz com que as margarinas dos dias de hoje sejam saudáveis. A margarina continua a ser um sucedâneo/tentativa de cópia da manteiga, industrialmente processada. Eu só estou à espera do próximo estudo a demonstrar que algum novo ingrediente das novas margarinas (esteróis vegetais? Vitamina K1 dihidro?) é a nova gordura trans.

Autor: Stephan Guyenet

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