Tenho uma hérnia discal, e agora?

Tenho uma hérnia discal, e agora?
Posso iniciar e/ou continuar o meu programa de exercício físico?

No seguimento do artigo publicado a 12/10/2016, intitulado de “Exercícios clínicos, promotores de saúde lombar e hipoálgicos“, sabe-se que muitas das dores nas costas, cervical (C), torácicas (T) e/ou lombar (L), podem ser provenientes de Hérnias Discal.

Muito resumidamente, a coluna vertebral é constituída por vertebras, 7C + 12T + 5L. Entre cada vertebra encontra-se o disco intervertebral, com a função de amortecimento, diminuindo/absorvendo/distribuindo os impactos. Os discos são formados por um anel fibroso e um núcleo gelatinoso conhecido como núcleo pulposo, que por cargas elevadas, movimentos repetitivos e bruscos, pode ocorrer rompimento, desgaste e/ou deslocação, dando origem a Hérnias.

Os fatores de risco são multifactorias, como o estilo de vida, trabalho, stress, ansiedade, obesidade, sedentarismo, idade, incluindo a prática de exercício físico (EF). (2) (11)

MAS…, ENTÃO…,

1 – SE E.F. É UM FACTOR DE RISCO, NÃO POSSO FAZER!!!???

Sim é um fator de risco, mas vou repetir o paragrafo do artigo anterior,

É a inúmera literatura que se faz público acerca dos benefícios do exercício físico (EF), tem salientado o treino de força, como mais uma das medidas profiláticas e terapêuticas, usadas frequentemente na promoção da saúde, prevenção e/ou reabilitação. Ao que parece, aumentos da massa muscular tem efeito promotor e hipoálgico, “na saúde músculo-esquelético, dor, incapacidade e qualidade de vida” (7).

O EF, aeróbicos e de fortalecimento muscular, principalmente os músculos estabilizadores (core),  aumentam a difusão passiva de oxigénio, diminuindo a concentração de hidrogénio, melhorando assim a nutrição do disco, o que leve à diminuição da dor nos processos patológicos mecânico-degenerativos da coluna-lombar. (6) (12)

Contudo, “…usar uma variedade de medicamentos para aliviar a dor; por vezes medidas de tratamento mais agressivas, não parecem ter sido eficazes”. (9)

2 – E.F. NÃO…!! nem levantar pesos…!!!

Só porque sim, e/ou porque te disseram que pode agravar a tua situação clínica.

Sim pode, mas no entanto, caminhar, deitar, sentar, saltar, agachar, levantar, rodar, puxar, flexão, extensão, etc….Levar os sacos da compras de 5 kg mais um garrafão de 5l de água, levar o teu filha/a ao colo ou a mochila, etc, etc… já podes !!!???

Isto são exercícios que tu fazes todos os dias nas tuas atividades de vida diárias (AVD’s). Então, se os tens de fazer necessariamente nas tuas AVD’s, porque é que não os poderás realizar no teu treino?

No treino, até são pensados, planeados, avaliados, ordenados, quantificados, propositados, supervisionados, personalizados, inclusivos, ecléticos…etc, etc, etc….

Julgo que respondi à tua dúvida, sem mencionar evidências.

O uso de exercícios de fortalecimento muscular para o tratamento de lombalgias e discopatias resulta numa maior eficiência na reabilitação, com enfoque na variação da intensidade, frequência e tempo dos exercícios. Afirma ainda, que os exercícios de fortalecimento muscular têm sido indicados na reabilitação de doenças degenerativas dos discos. (19)(20)

O treino de força tem sido indicado em programas de reabilitação, pelas evidentes adaptações neuromusculares obtidas. Porém, pode haver um agravamento do quadro clínico, pela possibilidade das forças aplicadas sobre as costas, causarem dor/algias. Mas que, quando bem aplicadas e planeadas adequadamente esse tipo de exercício pode fazer parte do programa de tratamento de reabilitação e recuperação. (21).

3 – MÃOS À OBRA!?

Tens todas as condições de segurança, necessidades humanas básicas garantidas, higiene e saúde asseguradas e reunidas?

Ora, bem, Regista:

  • O diagnóstico de Hérnia discal está presente e fundamentado, com exames de diagnóstico e relatórios?
  • A tua família está contigo neste processo de recuperação/reabilitação?
  • A tua anamnese e avaliação física funcional foram realizadas por um profissional de saúde ou do exercício que tem conhecimento e/ou formação em patologias da coluna para te ajudar?
  • O teu planeamento de intervenções/treino tem contemplado, correção e gestão nutricional, hídrica e descanso?
  • O teu planeamento de intervenções/treino tem como fins de promotores de saúde, prevenção dos riscos/lesões/cronicidade, recuperação/reabilitação?
  • O teu planeamento de intervenções/treino dá mais enfase aos exercícios de fortalecimento dos músculos core, estabilizadores da coluna, em abundância?
  • Já tens conhecimento e dominas todas as técnicas de execução dos exercícios?
  • Consegues sentar-te numa cadeira, ou apanhar um objeto do chão, com a coluna e pélvis na posição anatómica neutra (imagem A e B)?

hernia-discalEm ambas as imagens vês uma vara encostada nas costas. Na imagem B vês 3 pontos de apoio NUCA – TORACICA – SACRO. Estes pontos de apoio são a regra para realizares quaisquer exercícios com a coluna e pélvis na posição anatómica neutra.

Caso contrário, o que te vai acontecer é o que se segue nas imagens seguintes C, D,E.hernia-discal-2

O que se vê nas imagens C,D,E, é ausência de um dos pontos de apoio, o do sacro. Nesta situação. Se os músculos abdominais forem mais fortes do que os músculos que fazem anteversão, a tendência é retroversão da pélvis (imagem D,E).

Retroversão da pélvis com excessiva contração do abdominal = ausência do ponto de apoio SACRO = má postura = risco aumentado de lesão = pessoa que não pode realizar alguns exercícios…de momento.

Músculos agonistas e antagonistas desequilibrados = má postura. Daí ser importante a correção com exercícios para a desinibição dos mesmos.

  • O teu planeamento de intervenções/treino está dividido em 4 fases com monitorização e aumento gradual do tempo e cargas?

Fase 1 – Técnica e Treino com peso corporal

Fase 2 – Técnica e Treino com adição de cargas leves

Fase 3 – Técnica e Treino com adição de cargas moderadas

Fase 4 – Técnica e Treino com adição de cargas elevadas

Esta fase 4, (fase só para pessoas/atletas treinados, que já tenham superado as anteriores fases sem dor e sem agravamento da sintomatologia e quadro clinico; demonstrem músculos estabilizadores equilibrados, capazes de suportar cargas elevadas e técnicas de execução autênticas). É daquelas situações, que com a minha prática, fui experienciando e tendo conhecimento de pessoas/atletas, com diagnóstico de hérnia discal, com e sem cirurgia.

Com o passar de anos de exercícios, hoje realizam cargas elevados, diria até excessivas, com relatos de ausência de dor, ausência de desconforto e melhorias no quadro álgico. Compartilham as suas experiencias e que desde que começaram a treinar pesado, nunca mais tiveram crises nem dores. Sentem-se perfeitamente funcionais para o trabalho que estão a realizar.

Back squat, front squat , overhead squat, push press, deadlift, push jerk, cleans, pull-ups, remadas curvadas, leg press, são alguns dos muitos exercícios que tenho presenciado.

Até tenho conhecimento de atletas a fazerem competição de atletismo, btt, crossfit, powerlifting.

O que eu chamo de, evidência NÃO ESCRITA, MAS SIM da experiência e da prática…

A verdade é esta, “…uma pessoa forte, a probabilidade de se lesionar quando realiza um exercício com uma má técnica, o risco de lesão ou o agravamento da mesma, é muito diminuída…”. (1) (8)

2 – ESTOU COM DORES, POSSO TREINAR?

Há quem defenda, que na fase aguda, se deverá optar pelo repouso (5), contudo há controvérsias, sugerindo que se deve manter activo, evitar exercícios que causem dor ou dificultem a técnica de execução, propiciando agravamento da sintomatologia. Opção pelas terapias manuais e acupuntura, são evidentes (3) (4).

O repouso deve ser evitado, ao que parece não é uma terapia eficaz. “…permanecer ativo e dar continuidade às atividades normais, menos incapacidade crónica e menos problemas recorrentes, um retorno mais rápido ao trabalho..”. (13) (15)

3 – CIRURGIA, SIM OU NÃO?

A cirurgia, é um processo com uma série de premissas que deves por na balança. No entanto, tens de ponderar muito bem o que queres e é o melhor para ti. És tu quem decides.

“O tratamento conservador é eficaz em 80% dos pacientes, dentro de quatro a seis semanas. No caso de difícil controlo da dor, bloqueio foraminal, é a melhor opção. A indicação cirúrgica deve ser proposta na falha do tratamento conservador, ou na progressão dos sintomas neurológicos.” (10)

O tratamento conservador é nem mais nem menos, fisioterapia, apoio de analgesia e relaxamento, principalmente através de exercícios e alongamentos. (10)

Acrescento, todo o apoio de uma equipa multidimensional (medico, enfermeiro, fisioterapeuta, família, amigos, técnicos de exercício, etc)

Terapia com laser de baixa potência, ao que parece também tem surtido efeito hipálgico. (16)

O meu conselho, será: – esgota e explora o tratamento conservador até não haver mais alternativas.

4 – Pós-operatório, E AGORA?

Não há evidência, de que pessoas submetidas a cirurgia de disco, precisem de ter suas atividades restringidas pós-cirúrgico.

Um programa de reabilitação imediata é recomendado pós cirúrgico. A intervenção cognitiva com reforço positivo, juntamente com o exercício é um tratamento eficaz. (14)

Programas de exercícios, parecem levar a uma diminuição mais rápida da dor e incapacidade do que nenhum tratamento. Programas de exercícios de alta intensidade parecem levar a uma diminuição mais rápida da dor e incapacidade do que os programas de baixa intensidade. (17) (18)

5 – TREINAR COM O CINTO É UMA SOLUÇÃO PARA A PREVENÇÃO?

Como diz um colega e amigo, da área do EF, “queres lesionar-te e tornar o teu corpo calão, treina com cinto…”

Julgo que tens aqui a resposta.

No próximo artigo, dar-te-ei uma resposta mais aprofundada.

Clique para mostrar/ocultar as referências

Personal Nurse&Fitness - Enfermeiro, a desenvolver atividade nas áreas da Saúde Mental, Reabilitação e no Desporto - Técnico de Exercício Físico - Treinador Pessoal, a desenvolver actividade nas áreas da Recuperação e Reabilitação Motora Física e Funcional, Treino adaptado, Nutrição Funcional, Treino de competências e Adpatativas Funcionais em Populações Clínicas, em contexto de Ginásio, Treino Terapêutico e Exercício Clínico, para a melhoria da Saúde, Bem-Estar e Qualidade de Vida - Instrutor de Atividades de Grupo (HIIT, Spinning, Treino Funcional, Treino com Barra) - Criador dos Programas InsanHIIT - SMOutdoor Fitness e DBFIT - Criador do Projeto SempreMovimento - SMnurse&fitness (Enfermagem+Desporto+Nutrição+Saúde) - Administrador da página SempreMovimento - SMnurse&fitness Certificado em: - Medicina do Exercício e Terapias Manuais – Exercício Clínico para Saúde Músculo-Esquelética - Treino de Qualidades Físicas – Treino com Peso Corporal e Resistência Manual - Treino para Obesidade e Gestão do Peso - Nutrição e Suplementação Desportiva - Preparador Físico e Desportivo