Entrevista a Marcelo Moraes

O que nos pode dizer acerca da sua pessoa? Tendo em conta que há pessoas aqui que podem não o conhecer bem, pode-nos falar um pouco de si?

O meu nome é Marcelo Moraes, tenho 49 anos, e tive a sorte de não ter de pensar e decidir sobre o que fazer na vida. desde que me lembro, quis ser “Mister”(era assim que se chamavam os campeões antigamente). Sou uma pessoa que sente-se bem conseguindo ajudar os outros a conseguirem alcançar os seus objectivos.  Também sempre fui atrás dos meus sonhos, e tive uma vida muito simples, mas sempre consegui extrair muito sumo da grandeza que se esconde por trás da simplicidade.

O que faz em termos profissionais?

Pelas manhãs e tardes, dou treinos individuais (prefiro este termo do que “treinos personalizados”, pois todos os meus trabalhos, quer individuais ou como monitor de ginásio, são sempre personalizados). A noite, sou monitor em dois ginásios diferentes, um num espaço que exploro em Alcântara (Lisboa), e outro onde sou funcionário, em Massamá (Linha de Sintra).

Também tenho o meu site, e também ocupo-me dele, publicando os meus artigos, e tentando atender os e-mails que recebo (amigos que me visitam, ex- alunos que me reencontram, pessoas em geral para dar treinos e opiniões). Eventualmente realizo palestras de nutrição (embora não seja nutricionista), ajudo algum atleta com as poses da sua rotina de competição, e estou trabalhando actualmente num projecto próprio na área da suplementação culturista. Actualmente, “encaixo” os meus treinos em algum eventual horário livre…

Como começou a praticar musculação e quais foram as influências que o levaram a escolher este desporto?

Acho que não tive exactamente influências (ao menos não recordo delas). Como já disse, desde que me lembro que queria ser musculado (praticamente tentei a vida toda e pouco consegui, ha,ha,ha!). A propósito, sou um atleta anterior ao termo “musculação”.

Pratica outro desporto? Qual?

Não, não pratico outro desporto, embora tenha praticado outros no passado, e actualmente até tenho dificuldade de praticar plenamente o culturismo, pois sofri uma lesão gravíssima á dois anos (sem possibilidade de tratamento), no tríceps esquerdo (rasguei parcialmente o tendão do tríceps, o que impede em muito o meu rendimento…).

Qual o seu ídolo/s ou pessoa/s com que mais se identifica neste desporto?

Neste desporto (e como em todas as artes), acho que não se deve juntar o artista e a obra, pois um deles revela-se sempre aquém do outro. Mas há excepções, e uma pessoa que me inspirou muito e que me identifico muito neste desporto é o meu amigo (um privilegio!)  Henrique Felizardo. É uma excepção à regra. Grande como pessoa e grande como atleta. Para mim é o melhor campeão nacional de sempre, em  Portugal.

Tem o apoio dos seus familiares e amigos?

Nunca me preocupou necessariamente ser apoiado. Sempre vivi com muita paixão a minha actividade, sentindo que estava no meu caminho, e isto acaba até por contagiar os que nos rodeiam. Acho que nunca prejudiquei ninguém com as minhas escolhas nestes termos, e sempre precisei só da minha cabeça e da minha vontade para ir em frente. Apesar disto tudo o que digo, tenho muito que agradecer, desde a minha família aos meus amigos, passando pelos meus alunos, uma grande fatia de tudo de bom que aconteceu para mim no meu desporto.

Como reagiram quando se envolveu na musculação?

Na altura em que comecei a treinar com pesos, esta era uma actividade “quase marginal”, e lembro que o meu avô até deixou de falar comigo durante um período. Mas são, absolutamente, aguas (muito) passadas.

E mais tarde quando se envolveu mais a sério e começou a competir?

A sério me envolvi desde logo que entrei. Quando competi pela primeira vez, e ganhei o “Mr. Rio de Janeiro Jr”, minha família talvez tenha passado a entender mais da dimensão que isto tudo tinha para mim, e também visualizei, afinal, um pouco de orgulho deles na minha vitória…

Sabemos que para além de competições em Portugal, também já participou em competições internacionais, o que nos pode contar acerca dessa experiência?

Já estive nos Campeonatos do mar Mediterrâneo e no Campeonato Europeu. Estar numa prova internacional torna-nos mais humildes, pois o nível é muito alto, e parece que na volta ao nosso país, teremos de matricular-nos num ginásio para começar-mos a treinar, ha,ha,ha! Foi um sonho realizado e muito gratificante para mim, estar no palco junto com atletas internacionais conhecidos e admirados (El Sahat Mabrouk, José Cano, Francisco Bautista, o turco Akutlu).

Para os que não acompanharam a sua carreira competitiva, em quantas competições já participou e que classificação obteve?

Marcelo MoraesCompeti durante 26 anos ao todo. Graças a Deus, consegui os títulos Jr, Sênior e Veteranos, além de um ou outro campeonato ganho e minhas participações internacionais. 1980 Jr Rio de Janeiro, 1989 Campeão Nacional (Portugal), 1992 Representante de Portugal nos Campeonatos do Mar mediterrâneo, 2000 Representante de Portugal no Campeonato Europeu, 2006 4º lugar no troféu Ultimate Stack (com 44 anos, “no meio dos miúdos…”), 2006 Campeão Nacional, Categoria Veteranos. Além de ter sido 4x vice-campeão nacional em outras edições.

Pensa voltar a participar em alguma competição em breve?

A minha lesão no tríceps é o meu maior impedimento para competir de novo, mas 26 anos em competição acho que já são suficientes…

O que considera que se valoriza mais nos dias de hoje? Quantidade de massa muscular, ou definição?

O culturismo não é um desporto que regista marcas. É julgado no que eu chamo de “Olhômetro”, e ao longo das décadas vão mudando as tendências de apreciação ao julgar. Eu particularmente, aprecio a “média” entre muscularidade, volume e simetria. Penso que deveria vencer quem reunisse o máximo destes três critérios básicos do Bodybuilding. Mas hoje, se aprecia mais a definição, em detrimento das outras apreciações. Pessoalmente, não gosto da definição superar a simetria, pois de antemão, acho que um físico construído, é um físico que esta completo. Algumas pernas finas têm ganho, simplesmente porque estão mais definidas (ha,ha,ha!). Também não gosto de ver culturistas a sacrificarem tamanho, duramente adquirido, para estarem recortados e pequeninos…  13- Aí está a situação dos critérios a julgar. Na minha ultima prova (Troféu Ultimate Stack), não obtive o terceiro lugar, pois o atleta que me venceu estava mais seco do que eu (e é verdade), mas não tinha nenhum volume na coxa (ou seja, a simetria já estava perdida, e se distribuíssemos o volume do tronco pelas pernas abaixo para equilibrá-lo, o índice de volume também se esvaia…)  Mas de certeza, que em outras ocasiões ocorreu o contrário, e venci alguém que não concordou com os critérios aplicados então.

Como culturista, alguma vez se sentiu injustiçado em termos de classificação?

Acho que vou abrir mão desta resposta…

Que objectivos tem para o futuro, tanto no plano pessoal como profissional?

Os meus objectivos já não são competitivos. Como disse anteriormente, estou a tentar entrar num projecto que envolve suplementação para culturistas. Estou também tentando tempo para escrever um livro sobre culturismo (nutrição, treinos, palco). No campo pessoal, me encantaria ter tempo e paz para escrever um romance, contando coisas na primeira pessoa, misturadas com a ficção (para não saberem ao certo a linha que as separa, ha,ha,ha!).

Quais as características que, na sua opinião, deve ter um bom competidor?

Há um item que considero também importante (e é!) que os atletas não se apercebem realmente dele.  A maneira de posar e a apresentação no palco. Ser culturista, em palco, implica conseguir mostrar o que o trabalho no ginásio e a dieta conseguiram realizar. Muitos desprezam este aspecto, ou não o consideram o suficiente. Esquecem de uma coisa fundamental: Este desporto é o único que vai ao palco. Quem vai ao palco é artista. Artista é quem comunica através da sua arte. A arte, nesta circunstância,  é a pose. A maioria dos culturistas não se apercebe desta grandeza. As outras características de um competidor serão mais evidentes: espírito de sacrifício, competitividade, etc.

Quando se preparava para competir, que tipo de dieta utilizava?

Dependeu sempre do estado em que me encontrava: de volumoso ir para seco, de magro ir para denso, etc

E fora das competições, em “off-season”?

Em todos estes anos neste desporto, o off-season confundiu-se sempre entre estar mais magro e subir ao ponto, ou estar volumoso e descer ao ponto. Foi sempre circunstancial…

Quais os alimentos “proibidos” de que mais gosta?

Gosto muito de gelados, embora não tolere nada a lactose.

E quais são os que menos gosta?

Nunca consegui comer pescada. Só o cheiro, me dá náusea. Posso comer a mesma coisa indefinidamente, mas somente as coisas de que gosto…

Utiliza suplementos? Quais?

Marcelo MoraesActualmente a minha suplementação é maioritariamente antioxidante (ha,ha,ha!). Uso diversas (supostas) protecções hepáticas, depuradores dos rins, gorduras essenciais, l-carnitina, ácido fólico, vit. C, e a antiga e boa levedura de cerveja. Também uso proteína 90% de caseína. As modernidades todas, já as usei para saber sobre, mas agora só quero atrasar o tempo de envelhecer… os produtos da Gaspari Nutrition são fortíssimos…

Pode-nos dizer qual o tipo de regime de treino que prefere usar ou que segue actualmente?

Actualmente treino conforme posso, e faço o tronco todo 2x na semana (2 exercícios para cada grupo muscular), e a coxa treino 1x na semana, em dia separado do tronco, claro. Actualmente não dá para muito mais, mas eu adoro treinar assim (como no tempo dos culturistas que faziam os “Hércules”). Penso que é óptimo para “segurar” a forma, e manter a simetria.

Qual o grupo muscular que mais gosta de treinar, e qual o exercício que mais gosta de executar?

Gosto muito de treinar o peito. Adorava os agachamentos, mas agora já não os faço. As vezes, agachava uma hora e meia seguidas!!

Modifica o seu esquema de treino antes de uma competição?

O meu regime de treino sempre foi virado ao mesmo objectivo: Simetria. De resto, apoiei-me sempre na dieta para realizar as outras performances (volume/definição).

Como prefere realizar os seus treinos, com pesos livres ou máquinas?

Hoje em dia há maquinas que foram muito bem elaboradas, criando ângulos que a inércia e a gravidade do peso livre não alcançam. A Pannata (linha Heavy Duty) é um exemplo. Não radicalizo, e utilizo sempre o meu sentimento e condição física para a escolha do material a utilizar no dia.

Qual é para si o aspecto mais duro e difícil de ultrapassar na preparação para as competições?

Nunca considerei a preparação como dura ou difícil, ou outra coisa qualquer. Faz-se o que se tem de fazer, e pronto. Apesar de que, sem paixão as coisas podem custar mais…

Tem outros passatempos para além da musculação? Quais?

O avô de um amigo uma vez disse-lhe um dia: “Na vida, vai fazer o que gostas, para nunca ter de trabalhar…”

Como vê o desporto do culturismo de hoje em dia, mudou algo desde os primeiros dias em que começou a praticar musculação?

O que mudou, penso, foi uma melhor aceitação (acho eu…). Como já mencionei, no meu inicio, esta era uma actividade não muito bem vista, não aceita nem pelos outros desportos. Levantar pesos, nesta altura, atrapalhava tudo, na opinião de todos os outros desportistas.

Tem alguma sugestão ou dica que queira transmitir aos leitores deste site/fórum que procuram obter sucesso no culturismo, ou desenvolver um físico de culturista?

Quem sou eu, para dar dicas… Estou aqui para relatar coisas sobre mim, e não sobre os outros… Mas acho que pensar que ser/estar culturista é objecto de superioridade sobre os outros, é ridículo. É o que menos gosto de ver neste desporto…

Penso que podemos ficar por aqui, deseja dizer algo mais ou agradecer a alguém em especial?

Muito obrigado pela oportunidade de estar aqui. Obrigado também aos leitores.   Visitem o meu site ,  tá? Abração.

Abaixo poderão visualizar uma galeria de imagens e um vídeo do atleta.

http://www.youtube.com/watch?v=nMXktjdKB0U

 

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