Deve-se aplicar gelo nas lesões?

Se já leu o nosso artigo “Cientistas descobrem que a inflamação ajuda a curar feridas“, já saberá que a inflamação é um componente necessário para a cura das feridas ou lesões.

É a resposta inflamatória que aumenta a circulação sanguínea e linfática nos tecidos lesionados, que por sua vez permite a introdução de nutrientes, mediadores inflamatórios e a remoção do material danificado.

Também é a dor inflamatória que faz com que as lesões provoquem dor, e que faz com que nos impeça de voltar a usar a área lesionada.

E sim, a resposta inflamatória poderá ficar descontrolada e provocar mais danos do que os iniciais. Mas é esta a forma que o nosso corpo tem de curar os tecidos danificados e recuperar das lesões.

Aliás, se a resposta inflamatória não existisse, não nos conseguiríamos recuperar das lesões.

Agora, segundo o conhecimento comum, uma das primeiras coisas que se deve fazer assim que se sofre uma lesão, é aplicar gelo para reduzir a inflamação. Mas será correto inibir essa resposta natural do organismo às lesões?

A aplicação de gelo em áreas específicas definitivamente interrompe o processo inflamatório global, reduzindo tanto as citocinas inflamatórias como as anti-inflamatórias.

Por exemplo, a aplicação de gelo nos músculos após um treino de sprint, parece reduzir os níveis de IGF-1 (um marcador anabolizante que normalmente aumenta após a lesão / exercício e melhora a cicatrização / recuperação), IL-1ra (uma citocina anti-inflamatória), e IL-1β (uma citocina inflamatória), ao mesmo tempo que aumenta os níveis de IGFBP-1 (um marcador catabólico que degrada o tecido) (1).

No entanto, essas são apenas marcadores, e uma entorse de tornozelo não é um exercício de sprint. Mas apensar disso – as respostas ao exercício e às lesões são baseadas nos mesmos mediadores inflamatórios e anti-inflamatórios Se um é afetado, o outro provavelmente  também será.

Quanto ao fluxo da linfa, já foi comprovado que a aplicação prolongada de gelo nos tecido aumenta a “permeabilidade dos vasos linfáticos ” fazendo com que haja um “retorno”  de líquido dos resíduos no local da lesão, agravando assim o edema, e que pode prolongar o tempo de cura da lesão (2).

O que nos diz a literatura?

Uma revisão da literatura realizada 2004 (3), analisou a capacidade da crioterapia para afetar a cicatrização de lesão dos tecidos moles e verificou 22 estudos controlados e randomizados para determinar se a aplicação de gelo realmente ajuda em algo, e os resultados foram no mínimo pouco claros:

  • A aplicação de gelo foi melhor para aliviar a dor após uma cirurgia no joelho quando comparado com nenhum gelo, mas o inchaço e a amplitude de movimento não foram afetados.
  • O gelo não foi mais eficaz do que a reabilitação em reduzir o inchaço, dor e amplitude de movimento.
  • O gelo e compressão foram melhores do que apenas o gelo na redução da dor.
  • Dos oito estudos que compararam os dois, houve pouca diferença entre o gelo e compressão e apenas compressão.

Eles concluíram que “com base na evidência disponível, a crioterapia parece ser eficaz na diminuição da dor”, mas a evidência é escassa para quaisquer conclusões. Uma outra revisão (4) que usou muitos dos mesmos estudos obteve resultados similares.

De facto, algumas evidências sugerem que a compressão é essencial e há vários estudos que mostram grandes benefícios da compressão com o gelo, em comparação com apenas gelo.

gelo lesõesNum estudo mais recente (5), um grupo de indivíduos que se encontravam a recuperar de uma cirurgia recente do LCA (ligamentos cruzados anteriores) receberam uma aplicação de gelo ou compressão + gelo.

O grupo da compressão + gelo obtive um maior alívio da dor e necessitou de uma menor quantidade de medicação para o alívio da dor, em comparação com o grupo que apenas recebeu a aplicação de gelo.

No entanto, uma meta-análise anterior constatou que, embora a crioterapia após a cirurgia ACL pareça ajudar a diminuir o nível de dor, não melhora a amplitude de movimento ou a drenagem da zona (6).

Por outras palavras, foi bom para a dor, mas na realidade não fez nada para acelerar o processo de cicatrização ou a recuperação completa dos pacientes.

Num estudo que comparou a compressão isolada com o gelo, a compressão superou os dois tipos de gelo – crioterapia contínua e aplicação intermitente de gelo – na redução do inchaço após uma lesão no tornozelo (7).

Conclusão

Em última análise, penso que a aplicação do gelo não é prejudicial para o processo de cicatrização. Certamente, pode reduzir a dor e, se essa for a única maneira de você voltar a conseguir colocar os tecidos em movimento, isso é uma coisa boa (contando que você não se move em demasia, muito rápido e acaba por voltar a lesionar o tecido enfraquecido).

Mas é obrigatória a aplicação prolongada e constante de gelo, no dia-a-dia que algumas pessoas sentem ser absolutamente necessária a qualquer hora em qualquer tipo de tecido algo dorido ou lesionado? Não. Parece-me claro que a compressão e a mobilização da área lesada são provavelmente mais importantes e eficientes que o gelo.

O que fazer em caso de lesão?

MCE = Mova-se, Comprima, Eleve.

  • Mova-se forma segura quando conseguir, o que conseguir.
  • Comprima os vasos linfáticos e tecidos moles (use bandas elásticas, contração muscular, roupas, etc).
  • Eleve o membro lesionado quando puder.

Referência 1|2|3|4|5|6|7

Prática de musculação baseada em evidência científica. Siga-nos através das redes sociais.