síndrome do impacto (bursite ombro)

Como aliviar ou até mesmo resolver a síndrome do impacto (bursite do ombro)

Os problemas nos ombros são provavelmente um dos tipos de lesões que mais assolam os praticantes de musculação e os praticantes de desportos em que se utiliza muito os braços.

Se pertence ao grupo dos que sofrem de problemas / dores nos ombros, este artigo é para si. E caso não tenha nenhum problema desse tipo, este artigo também é para si, pois terá todo o interesse em manter-se livre de dores e lesões de forma a que não interfiram nos seus progressos. E tal como o ditado diz: “Mais vale prevenir do que remediar”.

Imagem 1: Um estudo realizado em 1990 por Lo et al. verificou que 43.8% dos atletas que competem em desportos que envolvem a parte superior dos braços queixam-se de problemas nos ombros. 29% desses atletas sofrem dor constante.

O protocolo de 6 semanas cientificamente comprovado

Para a sua experiência, K. De May e os seus colegas do “Departamento de Ciências de Reabilitação e Fisioterapia da Faculdade de medicina e Ciências da Saúde do Hospital Universitário” em Ghent, na Bélgica, recrutaram 47 atletas (25 homens e 22 mulheres; com a idade média de 24.6 anos); BMI de 22.70Kg/m²) que tinham passado pelo menos 6+ horas por semana a praticar desportos competitivos com o envolvimento dos braços [voleibol (17), ténis (10),” canoe polo” (2), basebol (2), natação (11), e badminton (5)] e tinham vindo a sofrer de dores  contantes ou recorrentes  nos ombros, há pelo menos 3 meses.

Após uma análise inicial ao longo do qual foi diagnosticado a “síndrome do impacto (bursite do ombro) por especialistas experientes, os voluntários foram colocados num programa diário de exercícios muito simples, que consistiu em quatro exercícios.

  • exercicios para tratamento da síndrome do impacto bursite ombro
    Imagem 1 (De May. 2012): Imagens dos exercícios na mesma ordem da descrição da esquerda: Extensões em pronação, flexão para a frente, rotação externa, abdução horizontal + rotação externa numa posição de 90° de flexão.

    Extensões (retração) em pronação (ver!) –  O sujeito deita-se barriga para baixo, com os ombros numa posição de 90° de flexão para a frente. A partir desta posição, o sujeito realiza uma extensão bilateral para uma posição neutra, com o ombro em rotação neutra.

  • Flexão para a frente deitado de lado (similar, mas deitado de lado!) – O sujeito coloca-se numa posição deitado de lado, com o ombro em posição neutra. O sujeito realiza 90° de flexão anterior unilateral em plano sagital.
  • Rotação externa no lado deitado (ver!) – O sujeito deita-se de lado com o ombro em posição neutra e o cotovelo fletido a 90 °. A partir desta posição, o sujeito realiza 90° de rotação externa do ombro com uma toalha entre o cotovelo e o tronco para evitar movimentos compensatórios.
  • Abdução horizontal com rotação externa (desta forma, mas com os braços numa posição igual à da imagem 2) – O sujeito encontra-se de barriga para baixo com os ombros numa posição de 90° de flexão para a frente. A partir desta posição, o sujeito realiza uma abdução horizontal bilateral para uma posição horizontal, com uma rotação externa adicional do ombro no final do movimento.

Com 3 séries de 10 repetições cada, com 1 minuto de descanso entre séries e uma ordem de exercícios semanal aleatória (para assegurar que se treina todas as partes muscular de forma igualitária e não se substitui um desequilíbrio com outro desequilíbrio).

Antes de após o período de intervenção de 6 semanas, os participantes tiveram que responder a um questionário estandardizado, o chamado “Índex de dor e imobilização do ombro” (SPADI; cf. Brechenridge. 2011) e foram colocados num aparelho EMG para medir os seus respetivos padrões de ativação muscular.

Clique na figura abaixo, caso a deseje ampliar. 

síndrome do impacto bursite ombro
Figura 1: Pré e pós contração isométrica voluntária máxima (MVIC) em posições de teste muscular manual específicas para cada músculo de interesse (valor expresso relativamente à atividade EMG média para todos os 4 músculos, no gráfico á esquerda) e mudanças absolutas na atividade EMG durante a elevação de braço (direito) desde a pré até à pós intervenção (De Mey. 2012).

Os dados MVC da figura 1 (esquerda) foram obtidos em posições de teste muscular manual para cada músculo de interesse e com intervalos de MVIC de 5 segundos com 5 segundos de intervalo entre a ativação. E proporcionou os seguintes resultados (De Mey. 2012):

  • Todas as três partes do músculo trapézio exibiram valores máximos de contração isométrica voluntária (MVIC) após o programa de exercício (figura 1, à esquerda).
  • Todos os três músculos do trapézio contraíram de forma menos forçada durante a elevação do braço, enquanto não foram observadas mudanças para o serratus anterior (figura 1, à direita)
  • O rácio do músculo trapézio superior para o serratus anterior (TS/SA) diminuiu de forma significativa após o programa de treino, enquanto os rácios trapézio superior para trapézio medial e trapézio superior para trazério inferior  não sofreram alterações.
espaco subacromial síndrome do impacto bursite ombro
Imagem 2: Ilustração da anatomia do espaço subacromial

A melhoria significativa do índex de dor e imobilização do ombro (SPADI) de 29.86 para 11.70 após 6 semanas; uma redução média de 60%, (7 pacientes estavam praticamente livres de dores após 6 semanas!) tem portanto que ser devido ao resultado da redução combinada da ativação dos trapézios (não da sua força!) durante a elevação escapular plana, e o concominante aumento do rácio TS/SA, que provavelmente deixa mais espaço para que os tendões “pressionados” passem ao longo do pequeno espaço subacromial (veja a imagem 2).

Tendo em conta os resultados de outros estudos e o que é geralmente descrito como uma melhoria significativa das pontuações SPADI (8-13.2 pontos) na literatura, os investigadores apontam que:

No nosso estudo, isso foi o que aconteceu em 23 atletas. Em 7 jogadores, foi obtida uma recuperação completa, com base numa pontuação “SPADI” de 0.

Os resultados deste estudo são muito promissores dado que os sintomas limitantes dos ombros em atletas ativos que sofrem de dor moderada a persistente, podem servir como medida secundária de prevenção de lesões, limitando a dor de ombros de baixo nível, evitando o medo, e em última instância evitando a necessidade de cirurgias. (De Mey. 2012)

Se a perspetiva de um alívio total da dor sem a necessidade de realização de cirurgias não é o suficiente para que invista alguns minutos em reabilitação todos os dias, ou você é mesmo muito preguiçoso ou não faz mesmo ideia das dores que uma lesão crónica tão debilitante como esta pode provocar.

Implicações:

Por isso, independentemente de já ter dores nos ombros ou se é suficientemente inteligente e está disposto a despender alguns minutos extra em exercícios de “reabilitação”, eu sugiro-lhe vivamente que:

  • Não seja estúpido e tire 2-3 semanas de descanso de todos os exercícios para a parte superior do corpo e concentre-se em trabalhar nos desequilíbrios musculares que, em 90% dos casos são a razão por detrás das dores de ombros existentes, para depois, de forma gradual, regressar ao seu treino habitual com pesos leves e volume mais reduzido em todos os exercícios de empurrar.
  • Seja inteligente e incorpore 2 dos exercícios em cada segundo dia de treino, de forma a assegurar-se de que pode preservar o seu actual estado livre de dores e de que não irá arruinar o seus progressos apenas porque o seu ego lhe disse que parecia melhor fazer mais 5 séries de supino do que algumas extensões em pronação e rotações externas.

E não se esqueça de rever completamente o seu regime de treino – Está a realizar tantas séries para a parte superior do peitoral e parte frontal dos deltoides como para as suas costas completas? Se sim, então está na altura de mudar para um regime mais equilibrado, um que em primeiro lugar não só o irá ajudar a prevenir desequilíbrios musculares, como também facilitar um progresso constante em direção a um físico simétrico e estético.

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