Os bloqueadores de gordura funcionam? O que diz a ciência?

A par da rápida expansão da epidemia global da obesidade1, atualmente assistimos a um aumento da procura de suplementos para perda de gordura2, numa busca pela “pílula mágica” que possa resolver o problema do excesso de peso acumulado em virtude de um excedente energético mantido ao longo de demasiado tempo3.

O diverso mercado dos suplementos para perda de peso não mostra sinais de retração e o interesse da população parece ser cada vez maior. Anualmente, e só nos Estados Unidos, os consumidores gastam mais de $2.1 biliões de dólares nesta categoria de suplementos.4

Dentro da grande variedade de suplementos existente para perda de peso, temos os chamados “bloqueadores de absorção de gordura”, os quais prometem diminuir a quantidade de lipídeos que é absorvida ao longo do trato gastrointestinal, após a sua ingestão.5

O conceito aparentemente simples, somado à perspetiva de se conseguir, de forma fácil, a tão almejada redução de peso, poderá seduzir e levar muitos a utilizar este tipo de suplementos.

Neste cenário, várias questões se impõem. Serão estes suplementos realmente eficientes na perda de peso? São seguros? Através de quais mecanismos bloqueiam a absorção de gordura?

Quitosano

O quitosano é um composto derivado da quitina, um polissacarídeo obtido a partir do exosqueleto de crustáceos.5,6

Aparentemente, o quitosano tem a capacidade de ligar-se a substâncias lipídicas presentes no trato digestivo, arrastando-as até serem expulsas nas fezes, reduzindo assim a sua absorção pelos intestinos.5

Já foram realizadas várias meta-análises que procuraram determinar e quantificar um eventual efeito do quitosano na perda de peso. Os autores da mais recente, publicada este ano, afirmaram que a suplementação com mais de 2,4 g/dia, ao longo de um período inferior a 12 semanas, produz uma redução significativa do peso corporal (-1 kg) em indivíduos com um IMC >25.7

Uma outra meta-análise, publicada em 2018, incluiu 14 ensaios clínicos que tiveram uma duração média de 17 semanas (entre 4 e 52 semanas), durante as quais foi administrada uma média de 2 gr de quitosano (desde 0,34 a 3.4 g/dia), e detetou uma perda adicional de 1 kg de peso, em comparação com a toma de uma substância inerte (placebo).8

Duas outras meta-análises, publicadas anteriormente, sugeriram que a suplementação com quitosano, durante pelo menos 4 semanas, promove uma perda adicional de 1,7 kg de peso em adultos que apresentam excesso de peso ou obesidade.5,9

No entanto, os autores referem que a influência do quitosano no peso corporal foi mínima nos ensaios clínicos de qualidade mais elevada.5 9

Os dados aqui apresentados sugerem que este suplemento pode efetivamente promover perda de peso, a um nível que pode ser considerado ligeiro, ou pequeno.8 5 9

Apesar de não ser considerado um suplemento tóxico,7 a suplementação com quitosano pode causar obstipação e diarreia,8 e a EFSA recomenda que a sua ingestão diária não ultrapasse os 3 gramas.10

Orlistat (Xenical)

O Orlistat é um fármaco sintetizado a partir da lipstatina, um composto obtido a partir da bactéria Streptomyces toxytricini.11

A lipstatina inibe a atividade das enzimas lípase pancreática e gástrica, responsáveis por emulsificar a gordura ingerida a partir da dieta, interferindo assim num passo crucial para a sua absorção através dos intestinos. Com efeito, a inibição destas enzimas diminuiu a absorção de gordura em cerca de 30%.12

A literatura científica existente sugere que, em indivíduos com excesso de peso ou obesos, a suplementação com 120 mg de Orlistat, durante 1 ano, proporciona uma perda adicional de 2,9% do peso, ou cerca de 2,7 kg, em comparação com apenas dieta.12

No entanto, verifica-se que 16-40% dos indivíduos que tomam Orlistat sofrem pelo menos um de vários efeitos indesejáveis, incluindo esteatorreia, distensão abdominal, manchas oleosas, urgência fecal e incontinência fecal. Logicamente, este fármaco também poderá limitar a absorção das vitaminas lipossolúveis A, D, E e K.12

Polifenóis

Determinados polifenóis, presentes em frutas e vegetais parecem inibir a atividade da enzima lípase, de forma relativamente similar ao Orlistat13 14.

Por exemplo, num estudo em que os seus autores testaram 31 diferentes tipos de extratos de fruta habitualmente ingerida na Polónia, verificou-se que a groselha, groselha-preta, e as bagas de Aronia registaram o maior potencial de inibição da enzima lípase.14

Um conjunto de outros extratos vegetais já demonstraram possuir propriedades inibidoras da lípase, inclusive a Centella asiatica, Morinda citrifolia, Momordica charantia e o Gingko Biloba.15

É notória a necessidade de se realizar mais investigação neste campo, inclusive a obtenção de valores relativos a doses adequadas a administrar, bem como o nível de segurança da sua ingestão.

Fibra

A fibra dietética, presente em alimentos de origem vegetal, é constituída por um grande número de monossacarídeos ligados entre si, principalmente glicose, mas também frutose, galactose e outros.16

Apesar do ser humano não produzir, de forma endógena, enzimas capazes de desfazer o tipo de ligação (covalente) que une essas moléculas, a nossa flora intestinal inclui bactérias capazes de fermentar a fibra, convertendo-a noutro tipos de compostos, alguns dos quais são benéficos para a saúde.16

Em media, os adultos portugueses ingerem 18,1 gr de fibra por dia,17 um valor insuficiente, uma vez que a EFSA recomenda uma ingestão de 25 gr por dia.18

A fibra parece ter efeitos anti-nutritivos e diminuir a digestibilidade da proteína e da gordura, restringindo assim a quantidade de energia absorvida através do trato gastrointestinal.16

Isto poderá dever-se, pelo menos em parte à sua capacidade de se expandir e reter grandes quantidades de água, e também ao aumento do grau de viscosidade, e à sua aparente influência na velocidade de trânsito intestinal.16 19

Embora não seja totalmente consensual, verificou-se que uma maior ingestão de fibra diminui ligeiramente a digestibilidade da gordura (desde -1% até -2,8%), tendo-se detetado um aumento de 25 gr de gordura excretada nas fezes, o que equivale a uma redução de 225 Kcal ingeridas.16

De notar que a ingestão de quantidades elevadas de fibra poderá causar distensão abdominal e flatulência.16

A suplementação com fibra, ou melhor ainda, o aumento da ingestão de alimentos ricos em fibra, poderá traduzir-se em benefícios para a saúde, e também ao nível da composição corporal. No entanto, é notória a escassez de estudos que tenham avaliado a sua possível influência na perda de peso.

Conclusão

Tendo em conta a evidência existente, que foi aqui apresentada, pode-se afirmar que a suplementação com “bloqueadores de gordura” pode permitir uma perda adicional de peso, que tenderá a ser ligeira.

De notar que a toma deste tipo de produtos não é necessariamente isenta de riscos para a saúde. A ocorrência de perturbações gastrointestinais está bem registada no caso do Orlistat, e outros suplementos “naturais” também poderão ter efeitos colaterais.

Nunca é demais afirmar que, idealmente, um projeto de perda de peso/gordura deveria estar assente num regime alimentar personalizado e ajustado para esse objetivo, e também na prática regular de exercício físico.

Clique para mostrar/ocultar as referências

  1. Fruh SM. Obesity: Risk factors, complications, and strategies for sustainable long-term weight management. J Am Assoc Nurse Pract. 2017;29(S1):S3-S14.
  2. Ansari RM, Omar NS. Weight Loss Supplements: Boon or Bane? Malays J Med Sci. 2017;24(3):1-4.
  3. Blundell JE, King NA. Overconsumption as a cause of weight gain: behavioural-physiological interactions in the control of food intake (appetite). Ciba Foundation symposium. 1996;201:138-154; discussion 154-138, 188-193.
  4. Health NIo. Dietary Supplement for Weight Loss: Fact Sheet for Health Professionals. In: National Institutes of Health – Office of Dietary Supplements; 2020.
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  6. Castro R, Guerrero-Legarreta I, Bórquez R. Chitin extraction from Allopetrolisthes punctatus crab using lactic fermentation. Biotechnol Rep (Amst). 2018;20:e00287-e00287.
  7. Huang H, Liao D, Zou Y, Chi H. The effects of chitosan supplementation on body weight and body composition: a systematic review and meta-analysis of randomized controlled trials. Critical reviews in food science and nutrition. 2020;60(11):1815-1825.
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  9. Mhurchu CN, Dunshea-Mooij C, Bennett D, Rodgers A. Effect of chitosan on weight loss in overweight and obese individuals: a systematic review of randomized controlled trials. Obesity reviews : an official journal of the International Association for the Study of Obesity. 2005;6(1):35-42.
  10. EFSA Panel on Dietetic Products N, Journal AJE. Scientific Opinion on the substantiation of health claims related to chitosan and reduction in body weight (ID 679, 1499), maintenance of normal blood LDL‐cholesterol concentrations (ID 4663), reduction of intestinal transit time (ID 4664) and reduction of inflammation (ID 1985) pursuant to Article 13 (1) of Regulation (EC) No 1924/2006. 2011;9(6):2214.
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  13. Sultana R, Alashi AM, Islam K, Saifullah M, Haque CE, Aluko RE. Inhibitory Activities of Polyphenolic Extracts of Bangladeshi Vegetables against α-Amylase, α-Glucosidase, Pancreatic Lipase, Renin, and Angiotensin-Converting Enzyme. Foods. 2020;9(7):844.
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  15. Seyedan A, Alshawsh MA, Alshagga MA, Koosha S, Mohamed Z. Medicinal Plants and Their Inhibitory Activities against Pancreatic Lipase: A Review. Evid Based Complement Alternat Med. 2015;2015:973143-973143.
  16. Hervik AK, Svihus B. The Role of Fiber in Energy Balance. J Nutr Metab. 2019;2019:4983657-4983657.
  17. Lopes C, Torres D, Oliveira A, et al. Inquérito Alimentar Nacional e de Atividade Física, IAN-AF 2015-2016: relatório de resultados. 2017.
  18. EFSA Panel on Dietetic Products N, Journal AJE. Scientific opinion on dietary reference values for carbohydrates and dietary fibre. 2010;8(3):1462.
  19. Lattimer JM, Haub MD. Effects of dietary fiber and its components on metabolic health. Nutrients. 2010;2(12):1266-1289.

Fernando Ribeiro

Nutricionista (CP: 4100N) no Moreirense Futebol Clube. É licenciado em nutrição pela FCNAUP, e é também doutorando em Ciências do Consumo Alimentar e Nutrição, na mesma faculdade.