Os alimentos ultraprocessados promovem o aumento do peso?

Desde a dieta de Atkins à dieta do paleolítico, atualmente existe um grande número de dietas, em que cada uma afirma ser a melhor para perder peso.

Enquanto prossegue o debate acerca do tipo de dieta mais eficiente para promover a perda de peso, verificamos que a maioria das recomendações dietéticas para perder peso partilham uma recomendação em comum: evitar o consumo de alimentos ultraprocessados.1

Esses alimentos foram descritos como sendo “formulações constituídas principalmente por fontes industriais baratas de energia dietética e nutrientes, além de aditivos, usando uma série de processos” e contendo uma quantidade mínima de alimentos integrais.2

A crescente popularidade desse tipo de alimentos poderá dever-se ao fato de serem baratos, terem um período de conservação longo e por serem muito convenientes.3,4

No entanto, os alimentos processados podem promover uma ingestão excessiva de alimentos e o desenvolvimento da obesidade5 porque geralmente são ricos em calorias, sal, açúcar e gordura6 e foi sugerido que são formulados de forma a terem uma capacidade muito maior de estimular o apetite, comparativamente a alimentos menos processados.7-10

Também se teorizou que estes alimentos desregulam a sinalização intestino-cérebro e poderá influenciar o reforço alimentar a ingestão total através de mecanismos distintos da palatabilidade ou da densidade energética do alimento.11

O estudo

Embora o aumento da disponibilidade e consumo de alimentos ultraprocessados tenha vindo a ser associado ao aumento da prevalência de obesidade, ainda não tinha sido demonstrado que os alimentos ultraprocessados promovem uma maior ingestão de energia, ou que promovem a obesidade.12

Recentemente, um grupo de investigadores procurou determinar se as pessoas ingerem mais calorias quando expostas a uma dieta composta por alimentos ultraprocessados em comparação com uma dieta composta por alimentos não processados.12

Para testar essa hipótese, foram recrutados 20 adultos com uma idade média de 31,2 anos e um IMC de 27, que foram admitidos no NIH Clinical Center e receberam, de forma aleatória e durante 2 semanas, uma dieta ultra-processada ou uma dieta não processada, imediatamente seguida pela dieta alternada, também durante 2 semanas.

As duas dietas foram idênticas em termos de calorias, açúcar, gordura, fibra e macronutrientes apresentados e os voluntários foram instruídos a consumir a quantidade que desejassem.

Resultados

  • A ingestão ad libitum (à vontade) foi de mais ∼500 kcal/dia durante a dieta ultra-processada em comparação com a dieta não processada. com um aumento do consumo de hidratos de carbono (∼280 kcal/dia) e gordura (∼230 kcal/dia), mas não de proteína.
  • Os voluntários ganharam 0,9 kg de peso durante a dieta ultra-processada e perderam 0,9 kg de peso durante a dieta não-processada.
  • Durante a dieta não processada, os níveis da hormona supressora do apetite PYY diminuíram e os níveis de grelina (a hormona da fome) e de adiponectina aumentaram, em comparação com os níveis normais e com a dieta ultra-processada.

Estes investigadores escreveram:

“Apesar da dieta ultra-processada e não-processada terem sido igualadas em termos da quantidade apresentada de calorias, açúcar, gordura, fibra e macronutrientes, as pessoas ingeriram mais calorias quando expostas à dieta ultra-processada, em comparação com a não processada.”

“Para além disso, as pessoas ganharam peso na dieta ultra-processada e perderam peso na dieta não processada. Limitar o consumo de alimentos ultraprocessados poderá ser uma estratégia eficiente para a prevenção e tratamento da obesidade.”

E concluíram:

“Os nossos dados sugerem que, eliminar os alimentos ultraprocessados da dieta diminui a ingestão de energia e resulta em perda de peso, enquanto que uma dieta com uma maior proporção de alimentos ultraprocessados aumenta a ingestão de energia e conduz ao aumento do peso.”

Clique para mostrar/ocultar as referências

  1. Katz DL, Meller S. Can we say what diet is best for health? Annual review of public health. 2014;35:83-103.
  2. Martinez Steele E, Baraldi LG, Louzada ML, Moubarac JC, Mozaffarian D, Monteiro CA. Ultra-processed foods and added sugars in the US diet: evidence from a nationally representative cross-sectional study. BMJ open. 2016;6(3):e009892.
  3. Shewfelt RL. In Defense of Processed Food: It’s Not Nearly as Bad as You Think. Springer; 2016.
  4. Weaver CM, Dwyer J, Fulgoni VL, 3rd, et al. Processed foods: contributions to nutrition. The American journal of clinical nutrition. 2014;99(6):1525-1542.
  5. Poti JM, Braga B, Qin B. Ultra-processed Food Intake and Obesity: What Really Matters for Health-Processing or Nutrient Content? Current obesity reports. 2017;6(4):420-431.
  6. Poti JM, Mendez MA, Ng SW, Popkin BM. Is the degree of food processing and convenience linked with the nutritional quality of foods purchased by US households? The American journal of clinical nutrition. 2015;101(6):1251-1262.
  7. Ahima RS. The end of overeating: Taking control of the insatiable American appetite. J Clin Invest. 2009;119(10):2867-2867.
  8. Salt Sugar Fat: How the Food Giants Hooked Us. Proc (Bayl Univ Med Cent). 2014;27(3):283-284.
  9. Moubarac J. Ultra-processed food and drink products in Latin America: Trends, impact on obesity, policy implications. Pan American Health Organization World Health Organization: Washington, DC, USA. 2015:1-58.
  10. Schatzker M. The dorito effect: the surprising new truth about food and flavor. Simon and Schuster; 2015.
  11. Small DM, DiFeliceantonio AG. Processed foods and food reward. Science (New York, NY). 2019;363(6425):346-347.
  12. Hall KD, Ayuketah A, Brychta R, et al. Ultra-Processed Diets Cause Excess Calorie Intake and Weight Gain: An Inpatient Randomized Controlled Trial of Ad Libitum Food Intake. Cell metabolism. 2019;30(1):67-77.e63.

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