A margarina e a fitosterolemia

A margarina é uma dos meus produtos favoritas para criticar. É tão fácil!

O corpo tem uma série de formas de manter as coisas más afastadas, ao mesmo tempo que mantém as coisas boas dentro Uma das coisas que ele gosta de manter afastadas são os esteróis e estanóis vegetais (fitoesteróis), moléculas similares ao colesterol encontradas em plantas.

O corpo humano tem até duas enzimas dedicadas ao transporte dos fitoesteróis de volta para os intestinos, à medida que tentam difundir através do revestimento intestinal: as esterolinas. Estas enzimas impedem activamente os fitoesteróis de entrarem no corpo, mas permitem a entrada do colesterol. Ainda assim, passa um pouco de fitoesteróis, proporcional à quantidade presente na dieta.

Por uma questão de facto, o corpo tenta manter a maioria das coisas fora do organismo, excepto os nutrientes essenciais e algumas outras moléculas úteis. Os fitoesteróis, “antioxidantes” das plantas como os polifenóis, e praticamente tudo o que não seja material de construção do corpo é activamente excluído da circulação ou rapidamente degradado pelo fígado. E quase nenhuma delas consegue passar a barreira sangue-cérebro, que protege um dos nossos órgãos mais delicados.

Isso não é surpreendente uma vez que entenda o que muitas destas substâncias bioactivas são: têm efeitos semelhantes a drogas, interferem na actividade enzimática e vias de sinalização. Por exemplo, a isoflavona da soja, a genisteína, activa de forma anormal os receptores de estrogénio. O seu corpo não gosta de entregar o controlo a plantas químicas, por isso, defende-se forma activa.

Uma série de estudos tem mostrado que, grandes quantidades de fitoesteróis na dieta baixam o colesterol total e LDL. Isto levou à crença (ainda não testada) de que os fitoesteróis diminuem o risco de ataque cardíaco. O principal problema com esta crença é que as estatinas são a única terapia para diminuição do colesterol e LDL que também reduz a mortalidade (em alguns grupos específicos de pessoas), e o benefício da sobrevivência das estatinas, provavelmente nem sequer é mediado pelos seus efeitos para diminuição do colesterol! Veja este artigo de Anthony Colpo para leitura posterior.

Em estudos controlados, a redução do colesterol total e LDL por meio da dieta e de outras drogas para além das estatinas, não reduz a mortalidade. Décadas de estudos controlados com dietas mostraram que a substituição da gordura saturada por óleos vegetais polinsaturados reduz o colesterol, reduz o LDL, mas não altera a mortalidade total ou morte por doença cardiovascular. A soja contém uma grande quantidade de fitoesteróis, que é uma das razões pela qual é extremamente promovida como sendo um alimento saudável.

Tudo bem, vamos colocar nossos chapéus de empresários. Sabemos que os fitoesteróis baixam o colesterol. Sabemos que a soja está a ser promovida como uma alternativa saudável à carne. Sabemos que a manteiga está ser demonizada como fonte de gordura saturada entupidora de artérias. Tenho uma ideia. Vamos fazer uma margarina que contém uma dose maciça de fitoesteróis e comercializá-la como sendo saudável para o coração. Vamos dar-lhe o nome de Benecol, e vamos ter médicos a recomenda-lo aos pacientes cardíacos.

Aqui estão os ingredientes:

Óleo de Canola líquido, água, óleo de soja parcialmente hidrogenado, ésteres de estanol vegetal, sal, emulsionantes, (mono e diglicerídeos vegetais, lecitina de soja), óleo de Soja Hidrogenado, sorbato de potássio, ácido cítrico e dissódico de cálcio EDTA para preservar a frescura, sabor artificial, DL-alfa-tocoferol acetato, vitamina A palmitato, colorido com beta-caroteno.

“Um por dia, pela saúde do seu coração…” Ou talvez seja melhor não!

Estão a brincar comigo? Óleo de soja parcialmente hidrogenado para pacientes cardíacos? Uma boa e grande dose de ácido linoleico ómega-6? Uma megadose de estanóis vegetais “ saudáveis para o coração”? Para as suas artérias coronárias esta coisa é como um cocktail molotov!

E ainda nem cheguei à melhor parte. Existe uma pequena desordem chamada fitosterolemia que os proponentes dos fitoesteróis convenientemente ignoram.

Esses pacientes têm uma mutação num dos seus genes sterolin que permite que os fitoesteróis (incluindo estanóis) passem para a sua circulação com mais facilidade.

Eles acabam por ter 10-25 vezes mais fitoesteróis na circulação do que um indivíduo normal. Que tipo de benefícios de saúde obtêm essas pessoas? Aterosclerose prematura, uma morte prematura por ataques cardíacos, acúmulo anormal de esteróis e estanóis nos tendões e danos no fígado.

Apesar da publicidade e marketing ágeis, a margarina é apenas outro sucedâneo de alimentos, de produção industrial , que o irá ajudar a colocá-lo no subsolo em três tempos. Nos EUA, os fabricantes podem colocar a frase “sem gordura trans” no rótulo de um produto, e “0 g de gorduras trans” no rótulo nutricional, se contiver menos de 0,5 gramas de gordura trans por porção. Uma porção de Benecol contém 14 gramas. Isso significa que poderia conter até 3,5 por cento de gordura trans e ainda assim ser rotulado “sem gordura trans”. Isso é um crime. E esta coisa a está ser recomendada a pacientes cardíacos.

Na altura de decidir se um alimento é saudável, deve utilizar o princípio da precaução. A margarina é um alimento que não resistiu ao teste do tempo. Mostre-me uma única cultura saudável no planeta que coma margarina regularmente. A manteiga de vaca pode não ser tão apelativa como o último sucedâneo de alimento formulador, mas tem mantido culturas saudáveis durante gerações. Os EUA costumavam pertencer a esse número de culturas, quando a doença coronária era apenas uma eventualidade rara aos olhos de um cardiologista. A probabilidade de um novo alimento processado industrialmente ser saudável é aproximadamente igual a um macaco com os olhos vendados fazer um cesto de meio metro.

Não é impossível, mas eu não apostaria a minha vida nisso.

Autor: Stephan Guyenet

Prática de musculação baseada em evidência científica. Siga-nos através das redes sociais.