A hipótese lipídica: Presa no portão de partida

carne e ovos colesterol gordura saturadaA hipótese lipídica (dieta-coração) é uma teoria que afirma que (1) a gordura saturada, e em algumas versões, o colesterol, elevam o colesterol sanguíneo em humanos e (2), portanto, contribuem para o aumento do risco de ataque cardíaco.

Não vou passar muito tempo na teoria em relação ao colesterol, porque realmente não há muitas provas para a desmascarar em seres humanos. Tanto quanto eu posso dizer, a maioria dos investigadores das áreas da dieta e saúde já não levam a sério essa teoria porque as provas simplesmente falharam em materializar-se. O Dr. Walter Willett não acredita nisso, e nem sequer o Dr. Ancel Keys acreditava nisso.

Aqui está um gráfico retirado do estudo Framingham Heart (através do livro Prevention of Coronary Heart Disease, by Dr. Harumi Okuyama et al.) para chegar ao ponto certo. Os ovos são a fonte mais concentrada de colesterol na dieta americana. Neste gráfico, o grupo “baixo” ingeriu 0-2 ovos por semana, o grupo “médio” ingeriu 3-7, e o grupo “alto” ingeriu 7-14:

hipotese lipídica
Conclusão das figuras 1 e 2: Dentro dos valores de ingestão de ovos  desta população, as diferenças de ingestão de ovos não foram relacionadas com os níveis de colesterol no sangue  ou incidência de doenças coronárias.

A distribuição dos níveis de colesterol no sangue entre os três grupos foi praticamente idêntica. O estudo também não encontrou nenhuma associação entre o consumo de ovos e o risco de ataque cardíaco. O consumo de colesterol não aumenta o colesterol sérico a longo prazo, porque os seres humanos estão adaptados à ingestão de colesterol.

Nós simplesmente ajustamos o nosso próprio metabolismo do colesterol para compensar quando a quantidade aumenta na dieta, tal como os cães. Os coelhos não têm esse mecanismo de ajuste, pois a sua alimentação natural não inclui o colesterol, por isso, alimentá-los com colesterol, provoca-lhes um aumento do nível de colesterol no sangue e patologia vascular.

A primeira metade da hipótese lipídica defende que a ingestão de gordura saturada aumenta o colesterol no sangue. Isto foi aceite sem muita contestação quanto pelas autoridades de saúde relacionadas com dieta durante quase meio século. Em 1957, o Dr. Ancel Keys, propôs uma fórmula (Lancet 2:1959. 1957) para prever as mudanças nos níveis de colesterol total com base na quantidade de gorduras saturadas e gorduras polinsaturadas da dieta.

Esta fórmula, baseada principalmente em estudos de curta duração de 1950, afirmava que a gordura saturada é a principal influência dietética sobre o colesterol no sangue.

Segundo a interpretação de Keys` dos estudos, a gordura saturada eleva, e em menor medida a gordura polinsaturada reduziu o colesterol no sangue. Mas desde o início que existem sérias falhas nos dados, que foram apontadas nesta revisão da literatura em 1973 e publicada no American Journal of Clinical Nutrition.

O principal problema é que os estudos clínicos controlados, normalmente comparam gorduras saturadas com óleos vegetais ricos em ácido linoleico ómega-6 (AL), , e quando o colesterol sérico foi mais elevado no grupo da gordura saturada, isto era muitas  vezes atribuído a um aumento do colesterol provocado pela gorduras saturadas, em vez de ser o ácido linoléico a baixá-lo.

Quando uma dieta rica em gordura saturada foi comparada a uma dieta basal sem mudar a ingestão de ácido linoléico, muitas vezes não foram observados aumentos significativos dos níveis de colesterol no sangue.

Os estudos que pretendiam demonstrar um efeito do aumento do colesterol derivado da ingestão de gordura saturada muitas vezes introduziam-na após um período de dieta rica em LA. Desta forma, o efeito pode ter mais a ver com o facto do ácido linoléico estar a diminuir o colesterol sanguíneo que a gordura saturada estar a elevá-lo. Isso não é nada do que eu esperava encontrar quando eu comecei a ler através dos estudos de curta duração.

Li recentemente um estudo de 2003 que aborda exactamente este ponto. Muller et al. (Texto integral gratuito) comparou os efeitos de três dietas controladas sobre o colesterol no sangue de 25 mulheres saudáveis.

As dietas foram:

  1. Rica em gordura saturada do coco, baixa em LA
  2. O mesmo que a dieta # 1, com metade da gordura saturada substituída por carboidratos
  3. Baixo teor de gordura saturada, rica em LA, com a mesma gordura total, como em # 1

As dietas foram administradas a todo o grupo durante períodos de três semanas. Os investigadores descobriram que a dieta nª 3 reduziu o colesterol LDL e em relação à dieta nº 1 e nº 2. Os valores de colesterol total das mulheres das dieta nº 1 e nº 2 não foram estatisticamente diferentes (p = 0,09), e os seus níveis de LDL eram praticamente idênticos.

Assim sendo, uma diferença muito grande no consumo de gordura saturada não afectou o colesterol total e LDL quando substituído por carboidratos, mas ocorreu uma diferença significativa quando foi substituída por AL. A explicação mais simples é que o AL reduz o colesterol e LDL, mas a gordura saturada tem pouco ou nenhum efeito em ambos.

Um excerto retirado da secção de discussão:

A constatação mais importante deste estudo foi que a redução total de gordura saturada, sob a forma de óleo de coco, de 22,7 para 10,5% E, sem alteração na relação P/S [rácio de gorduras polinsaturadas para saturadas], não diminuiu o colesterol total ou LDL, mas reduziu o colesterol HDL de forma significativa.

Entre as pilhas de estudos mal conduzidos, fui capaz de encontrar um contra-exemplo, aparentemente bem controlado: Arterioscler. Thromb. Vasc. Biol. 18:441. 1988. Neste estudo de 8 semanas, o aumento de gordura saturada (em detrimento dos hidratos de carbono e com a AL constante) aumentou o colesterol total e LDL, além de aumentar o HDL e diminuir a Lp (a) e triglicerídeos.

A diminuição da gordura saturada de 15% para 6% de calorias (drástico), reduziu o colesterol total em 9% e o LDL em 11% (calculado pela equação de Friedewald). A variação entre os estudos pode ter a ver com os ácidos gordos saturados específicos utilizados em cada estudo, a sua duração, ou alguns outros factores de confusão desconhecidos.

Lendo através dos estudos controlados de curta duração, fiquei impressionado com a variabilidade e falta de acordo entre eles. Em alguns dos estudos, isso deveu-se provavelmente à falta de controlo sobre as variáveis e organização deficiente dos estudos. Mas se a gordura saturada exerce um efeito dominante sobre o colesterol sérico a curto prazo, isso deve ser demonstrável de forma pronta e repetida. Mas claramente que não é, por isso questiono-me  porque motivo as autoridades de saúde-dieta estão tão seguros de si sobre este ponto.

Os dados dos estudos a longo prazo também não suportam a hipótese da dieta cardíaca. A redução da gordura saturada ao mesmo tempo que se aumenta muito a ingestão de AL, provoca uma diminuição substancial do colesterol sanguíneo. Esta foi a conclusão do bem controlado estudo “Minnesota Coronary Survey”, por exemplo (14% de redução). Mas em outros casos onde a ingestão de LA sofreu menos alterações, como no MRFIT, “Women’s Health Initiative Diet Modification” e o estudo “Lyon Diet Heart”, a redução da ingestão de gordura saturada teve pouco ou nenhum efeito no colesterol total e LDL (0-3% de redução) .

Isso geralmente confundiu os investigadores. As pequenas mudanças que ocorreram poderiam facilmente ter sido devido a outros factores, tal como o aumento da ingestão de fibra e de fitoesteróis, uma vez que estas foram intervenções de múltiplos factores.

Outro golpe à ideia de que a gordura saturada aumenta o colesterol a longo prazo, provém de estudos observacionais. Aqui está um gráfico dos dados do estudo “Health Professionals Follow-up”, que acompanhou 43.757 profissionais de saúde durante 6 anos (Imagem retirada do livro “Prevention of Coronary Heart Disease” de Dr. Harumi Okuyama et al.)

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Figuras 3 e 4

O que estes gráficos mostram é que com um consumo de AL (ácido linoléico) relativamente constante, nem o consumo de gordura saturada, nem o rácio de AL para gordura saturada estão relacionados com o nível de colesterol do sangue em indivíduos vivos. Isto é verdade para toda uma vasta gama de ingestão de gordura saturada (7-15%).

Se ainda nem sequer podemos encontrar uma associação consistente entre a gordura saturada e o colesterol no sangue em estudos observacionais, como podemos afirmar que a gordura saturada é a influência dominante sobre o nível de colesterol no sangue?

Há mais. Se a gordura saturada fosse importante na determinação da quantidade de colesterol no sangue a longo prazo, você poderia esperar que as populações que comem mais gordura saturada tivessem níveis elevados de colesterol no sangue. Mas não é isso que acontece.

Os Masai tradicionalmente obtêm quase 2/3 das suas calorias a partir da gordura do leite, que é metade de gordura saturada. Em 1964, o Dr. George V. Mann publicou um artigo afirmando que os guerreiros tradicionais Masai não comiam nada a não ser leite muito gorduroso, sangue e carne, e tinham uma média de colesterol de 115 mg/dL no grupo etário dos 20-24 anos.

Para efeitos de comparação, ele publicou valores para os homens americanos na mesma faixa etária: 198 mg/dL (J. Aterosclerose Res. 4:289 1964).. Aparentemente, ingerir três vezes a quantidade de gordura animal saturada e várias vezes a quantidade de colesterol que ingere o americano médio, não foi suficiente para elevar os seus níveis de colesterol no sangue. O que faz elevar o colesterol de um homem Masai? Junk food.

tokelauns gordura saturada colesterol
O povo dos “tokelauns” é dos que ingere uma maior quantidade de gordura, e no entanto, têm níveis de colesterol normais.

Agora vamos nadar até a ilha de Tokelau, onde a dieta tradicional inclui cerca de 50% de calorias provenientes de gordura saturada do coco. Esta é a população com a maior ingestão de gordura saturada que conheço.

Como está o colesterol deles? Os homens na faixa etária dos 20-24 tinham uma concentração de 168 mg/dL em 1976, que éra menor do que o nível dos americanos na mesma faixa etária, apesar de terem uma ingestão de gorduras saturadas quatro vezes maior.

Os Tokelauans que migraram para a Nova Zelândia, e passaram a ingerir metade da quantidade de gordura saturada dos parentes da sua ilha, tinham um nível total de colesterol de 191 mg/dL no grupo de mesma idade e período de tempo, e um nível substancialmente mais elevados de LDL (J. Chron. Dis. 34:45. , 1981).

O consumo total de sacarose era de 2% nos Tokelau, e de 13% na Nova Zelândia. Eu penso que a frutose (que compõe 50% da sacarose – ou açúcar de mesa – e 55% no xarope de milho rico em frutose) é uma explicação mais lógica para o nível mais elevado de colesterol e LDL das sociedades modernas mais ricas, especialmente considerando os resultados deste estudo.

A conclusão inevitável é que, se a gordura saturada tem de todo alguma influência no nível de colesterol total e na concentração de LDL, o seu efeito é modesto e é ofuscado por outros factores.

Traduzido e adaptado a partir de um artigo de Stephan Guyenet

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