A carne apodrece no seu Cólon? Não. O que apodrece? Leguminosas, Cereais e vegetais!

Quantas vezes ouviram este mito ultrapassado a ser repetido?

“Os seres humanos não podem realmente digerir carne: porque apodrece no cólon.”

E sua variante:

“A carne demora 4-7 dias a digerir, porque tem de apodrecer no estômago em primeiro lugar”

(Algumas variações sobre este mito afirmam que pode demorar até dois meses!)

Tal como a maioria da propaganda vegetariana, isso não só é simplesmente falso, como é uma inversão da verdade. Como diz o provérbio: “Quando aponta o seu dedo, os seus outros três dedos apontam para si.” Vamos fazer uma curta viagem através do sistema digestivo para ver o porquê!

Uma viagem através do sistema digestivo humano (abreviada)

Resumidamente, a função da digestão é degradar o alimento na medida do possível, esperando separá-los em gorduras individuais, aminoácidos (os blocos de construção das proteínas) e açúcares (os blocos de construção dos hidratos de carbono) que podem ser absorvidos através da parede intestinal e utilizados pelos nossos corpos.

Aqui vamos nós!

Clique na imagem para uma descrição mais aprofundada, imagem, cortesia do departamento de biologia da Universidade de Cincinnati.

Nós esmagamos o alimento na boca, onde a amilase (uma enzima) divide alguns dos amidos. No estômago, a pepsina (outra enzima) desintegra as proteínas, e o forte ácido clorídrico (pH 1,5-3, média de 2 … é por isso que sabe mal quando vomitamos) dissolve tudo o restante. A resultante polpa ácida é chamada de ‘chyme’ e podemos imediatamente ver que a teoria da “carne apodrece no estômago” é falsa. Nada “apodrece” numa cuba de pH 2 com  ácido clorídrico e pepsina.

Em média, uma “refeição mista (incluindo carne), demora 4-5 horas para sair totalmente do estômago – de forma que derrubamos aqui uma outra parte do mito. (Tenha em mente que não absorvemos os nutrientes todos: ainda estamos a dissolver tudo.)

Finalmente, a nossa válvula pilórica abre-se, e nosso estômago liberta o quimo, pouco a pouco, no nosso intestino delgado, onde irão trabalhar um conjunto de sais e enzimas.

A bile emulsifica gorduras e ajuda a neutralizar o ácido do estômago; a lipase degrada as gorduras; a tripsina e a quimotripsina decompõem as proteínas e enzimas como a amilase, maltase, sacarase, e (nos tolerantes à lactose) a lactase decompõem alguns açúcares. Enquanto isso, a superfície do intestino delgado absorve tudo o que nossas enzimas dividiram em componentes suficientemente pequenos.

Clique na imagem para obter mais informações fascinantes sobre os tempos de trânsito gastrointestinal!

Finalmente, a nossa válvula ileocecal abre, e o nosso pequeno intestino delgado liberta o que sobrou no nosso intestino grosso, que é uma colónia de bactérias gigantes, contendo literalmente triliões de bactérias!

E a razão pela qual nós temos uma colónia de bactérias no nosso cólon é porque o nosso próprias enzimas não podem decompor tudo o que comemos.

Desta forma, as bactérias da nossa flora intestinal trabalham e digerirem algum do conteúdo restante, produzindo por vezes, resíduos de produtos que podemos absorver. (E, muitas vezes, uma quantidade substancial de “gases”). A matéria vegetal remanescente indigestível (“fibras”), bactérias intestinais mortas, e outros resíduos surgem como fezes.

Acontece que a pepsina, a tripsina, quimotripsina, e as nossas outras proteases fazem um bom trabalho a degradar as proteínas da carne, e os sais biliares e a lipase fazem um bom trabalho a decompor a gordura animal. Por outras palavras, a carne é digerida por enzimas produzidas pelo nosso próprio corpo. A principal razão pela qual precisamos das nossas bactérias dos intestinos é para digerir os açúcares, amidos e a fibra encontrados em cereais, leguminosas e vegetais, e que nossas enzimas digestivas não conseguem decompor.

Agora, de novo, como se chama ao processo de digestão dos alimentos por parte das bactérias…?

Pelo dicionário Inglês

apodrecer \ (verbo) – que sofre uma decomposição pela acção de bactérias ou fungos.

Por outras palavras, a carne não apodrece no seu cólon. São os CEREAIS, LEGUMINOSAS e VEGETAIS que apodrecem o seu cólon. E isso é um facto.

… E é por isso que os feijões lhe provocam gases.

É fácil dizer quando é que as bactérias intestinais estão a fazer o trabalho, em vez das suas enzimas digestivas: você sofre de gases. É por isso que o feijão e o amido lhe provocam gases, mas a carne não: eles estão a apodrecer no seu cólon, e os produtos da decomposição bacteriana incluem metano e gases de dióxido de carbono. Aqui está uma lista de alimentos que causam flatulência, e aqui vai outra:

Um inventário parcial: “Feijão, lentilhas, lacticínios, cebolas, alhos, cebolas, alhos franceses, nabos, repolho, rabanete, batata-doce, batata, castanha de caju, alcachofra de Jerusalém, aveia, trigo e fermento em pães. Couve-flor, brócolos, repolho, couve-de-bruxelas e outros vegetais crucíferos… ”

Um benefício colateral de uma dieta paleo é a eliminação dos maiores produtores de gases – leguminosas (devido ao açúcar indigestível, a rafinose) e vários outros menores (trigo, aveia, todos os cereais e derivados). E com certeza que me parece que as bactérias dos meus intestinos têm menos para fazer, agora que as minhas reservas enzimáticas de amilase e sucrase não estão a ser inundadas por uma avalanche de farinha e açúcar.

Mas espere! Há uma outra coisa engraçada! Sempre que comemos cereais, leguminosas e vegetais, não estamos a digerir e absorver quase nada da matéria da planta … estamos sim a  absorver resíduos bacterianos. Reformulando esta afirmação de forma menos diplomática:

Você não está a comer plantas: você está a comer excrementos de bactérias.

Evidência de apoio: Onde as Coisas Apodrecem

Eu sei que deveria ter terminado este artigo aqui, mas tenho mais a dizer. A digestão é uma área fascinante! (E antes de irmos mais adiante, eu não estou a dizer que nunca devemos comer vegetais: Eu só estou a eliminar um mito estúpido)

Primeiro, vou sustentar as afirmações acima, com estas referências.

J Appl Bacteriol. 1988 Jan;64(1):37-46. Contribution of the microflora to proteolysis in the human large intestine. Macfarlane GT, Allison C, Gibson SA, Cummings JH.

“No estômago e no intestino delgado proximal, os microrganismos encontrados como flora normal são um reflexo da flora bucal. As concentrações de bactérias na região são 10 (2) -10 (5) ufc / ml de conteúdo intestinal. No cólon, foram encontradas concentrações bacterianas de 10 (11) -10 ufc (12) / g.”

Por outras palavras, existem cerca de 10 milhões de vezes mais bactérias no cólon, do que no intestino delgado. Assim, a digestão bacteriana (‘aprodecimento’) não é significativa em qualquer outro local do nosso trato digestivo, a não ser no cólon.

Appl Environ Microbiol. 1989 Mar;55(3):679-83. Significance of microflora in proteolysis in the colon.Gibson SA, McFarlan C, Hay S, MacFarlane GT.

“A actividade proteolítica foi significativamente superior (P <0,001) no efluente do intestino delgado do que nas fezes (319 + / – 45 e 11 + / – 6 mg de azocaseína hidrolisada por h / g, respectivamente).”

Isso é uma mera percentagem de 3,4% da actividade proteolítica a ocorrer nas fezes vs o intestino delgado… e isso não tem em conta o que já ocorreu no estômago. Se a carne estivesse a ser digerida no cólon, seria de esperar que uma quantidade muito maior de proteolosis ocorresse aí. E esses 3,4% devem-se provavelmente à morte das bactérias intestinais (que compõem uma fracção significativa de fezes), e não à carne não digerida.

A maioria dos vegetais nem sequer apodrece no cólon, porque os seres humanos não são herbívoros

A maioria da parte comestível de uma planta é a celulose, um polissacarídeo (ou seja, uma cadeia longa de açúcares), que é muito difícil de degradar. Na verdade, nenhuma das enzimas digestivas, de nenhum animal, é capaz de decompor a celulose! Então a única maneira através do qual qualquer animal pode digerir plantas é recorrendo a bactérias para decomporem a celulose e aos intestinos para absorverem os resíduos.

Sistema digestivo dos ruminantes, imagem cortesia da Universidade de Minnesota. Clique para aceder ao artigo.

Os animais ruminantes, incluindo bovinos, búfalos, veados, antílopes, cabras e outros animais de carne vermelha, possuem um “estômago extra” especial chamado de rúmen.

Eles mastigam e engolem ervas e folhas para o rúmen, fermentam-nas um pouco, vomitam-na de volta, voltam a mastigá-la um pouco mais (chamado de “ruminando”), e engolem-no novamente, onde é digerida pela segunda vez.

Fermentadores do intestino grosso, como cavalos, possuem um intestino grosso extra longo. E os coelhos fazem a digestão duas vezes: comem o seu próprio coco, com o fim de obterem mais nutrientes a partir da matéria vegetal que comem.

(Para uma melhor explicação da digestão dos herbívoros, com muitas fotos, clique aqui para uma apresentação informativa (pdf) do Departamento de Agricultura da Universidade de Alberta).

Os seres humanos, em contrapartida, não possuem as bactérias intestinais que podem digerir a celulose. É por isso que não podemos comer erva, e porque os vegetais contêm tão pouco valor calórico para nós, e por isso designamos a celulose de “fibra insolúvel”: ela sai intacta tal como entrou.

Este fato por si só, prova que os seres humanos, enquanto omnívoros, são principalmente carnívoros: nós temos uma capacidade limitada para digerir alguma matéria da planta (amidos e dissacarídeos), de forma a ultrapassarmos tempos complicados, mas não podemos extrair quantidades significativas de energia a partir da celulose, que forma a maior parte dos elementos vegetais comestíveis, tal como os verdadeiros herbívoros conseguem.

Nós só podemos comer frutas, nozes, tubérculos e sementes (que chamamos de “grãos” e “feijão”) e as sementes só são comestíveis para nós, após uma laboriosa moagem, demolhagem e cozimento, porque ao contrário dos pássaros e roedores adaptados a esses alimentos, são tóxicos para os seres humanos no seu estado natural.

Você pode demonstrar a finalidade e os limites da digestão humana com uma experiência simples: coma um bife com alguns grãos de milho inteiros, e ver o que sai na outra extremidade. Não será o bife.

Autor: J. Stanton

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