A verdadeira dieta do paleolítico

Certas suposições acerca da dieta paleolítica – antes da revolução neolítica (agricultura) – têm sido postuladas e disseminadas principalmente nas redes sociais e blogs, e até em artigos publicado em jornais científicos.

Entre essas suposições encontra-se a ideia de que devido a ausência de agricultura não se comia grãos (e tudo o que é cultivado); que a percentagem de hidratos na dieta era reduzida; que o consumo de gorduras era elevado; e que a ingestão de proteína (animal) era também elevada. Neste último exemplo junta-se a proteína com gordura vinda das mesmas fontes (animais).

O que indicam as evidências sobre estas alegações? Em primeiro lugar temos de reconhecer que tudo o que era”paleolítico” já não existe nos dias de hoje, devido a alterações genéticas (domesticação) ao longo do tempo. Ainda assim podemos analisar as categorias em questão.

A verdadeira dieta do paleolítico

dieta do paleolítico

Parte 1: Paleolítico e consumo de grãos

Em Ohalo II (Israel) foi encontrado um local em 1989 que consiste essencialmente numa fábrica de comida, incluindo de grão [1,2]. Este local está datado em 22,500-23,500 B.P.

Estas são as primeiras evidências directas para o processamento humano de grãos. Entre outras evidências encontra-se um tipo de “forno” que segure que os grãos eram cozinhados [2].

Estes dados indicam a rotina de processamento de cereais combinado com métodos eficazes de cozinhar, pelo menos 12.000 anos antes do início da domesticação no Sudoeste da Ásia contribuindo significativamente para a dieta humana desde então.

Este local é único ao revelar uma abundante fonte de restos arqueobotânicos dominada por sementes como cereais selvagens, embora nozes, frutas, e legumes estejam também presentes. Adicionalmente várias pedras foram usadas para processar alimentos.

“Quase 98.000 restos de plantas foram encontradas na estrutura número 1: 52.000 no andar II e cerca de 46.000 no andar III” (tabela 1).

Mapped plant remains from Floors III and II.2No andar II faziam a preparação de comida. Isto é indicado pela “presença de um rebolo firmemente assente no chão, com sementes de cereais formando um padrão não aleatório distinto à sua volta. Grãos foram recuperados da face superior da pedra, mas raramente encontrados no lado inferior e sedimentos adjacentes, indicando que era usada para esmagar cereais” [1].

No andar II , 33% de todos os restos de plantas concentram-se à volta dos rebolos. A concentração de “burgul” (trigilho) indica a ocorrência de processamento de cereais, talvez até com o uso de fogo. (…) Embora nenhum rebolo tenha sido encontrado fixo no andar III, existem evidências da ocorrência de processamento de cereais. [1]

The stone implement analysed from Ohalo IlUm total de 150 restos de grãos foram recuperados directamente da pedra (fig.1). No andar III processavam grãos, tinham um rebolo, e até um “forno”. O “forno consiste num “alinhamento especial de pedras queimadas cobertas por cinzas, o que sugere ter sido um forno simples.

Alguns grãos carbonizados foram encontrados dentro do forno. O início da prática de cozinhar foi provavelmente um importante passo em frente na nutrição humana. Cozinhar grãos tem o efeito de aumentar a quantidade de energia disponível entre 56-72%, comparado com ingestão não cozinhada” [2].

Mais ainda, evidência indirectas de possível consumo de grãos desde há 45.000 atrás:

Modern and archaeological “Burgul”. A. from the hearth of Floor III, squareNo sudeste da Ásia, Europa e norte de África, vários tipos de rebolos, identificados como possíveis ferramentas para esmagar alimentos, surgem entre 45.000 e 18.000 anos BP [2].

Rebolos são também encontrados no Norte da China durante o Paleolítico final, incluindo micro lâminas em várias localidades: Longwangchan ca. 25,000 cal BP; Xiachuan entre 28,000-19,700 cal BP; Shizitan (Shanxi; 23,000- 11,800 cal BP); e em Nanzhuangtou (Hebei; 12,400-11,400 cal BP), que também tem cerâmica [3].

Natiufianos

Os caçadores-coletores Natiufianos (13,000-11,000 B.P.) tinham também ferramentas para armazenar e processar grão selvagens. A origem da agricultura nesta zona do Este está datada entre 12,500 e 11,250 B.P. Os Natufianos armazenavam grãos para uso ao longo de todo o ano. [4]

Ao escavar a casa 11 em Gilgal descobriu-se mais de 260.000 unidades de cevada e 120.000 unidades de aveia selvagens. Baseado na quantidade e arquitectura esta evidência reflecte a cultivação pré-domesticada. Sugere-se que esta estrutura tenha sido um celeiro e não uma casa. Estes celeiros pré-datam em 1000 anos o surgimento de cereais morfologicamente domesticados [5].

Recentes investigações em trigo emmer identificaram duas linhagens diferentes de um gene de glúten tão diferentes que se estimam terem-se separado há 100.000 anos atrás, muito antes da domesticação. Tais evidências implicam duas domesticações diferentes de emmer. [6]

Referências:
  1. Ainit Snir, Dani Nadel, Ehud Weiss. Plant-food preparation on two consecutive floors at Upper Paleolithic Ohalo II, Israel. Journal of Archaeological Science Volume 53, January 2015, Pages 61–71
  2. Dolores R. Piperno, Ehud Weiss, Irene Hoist & Dan Nadel. Processing of wild cereal grains in the Upper Palaeolithic revealed by starch grain analysis. Nature 430, 670-673 (5 August 2004)
  3. David Joel Cohen. The Advent and Spread of Early Pottery in East Asia: New Dates and New Considerations for the World’s Earliest Ceramic Vessels. Journal of Autroneasian Studies 4 (2) December 2013.
  4. Carlos A. Driscoll, David W. Macdonald, and Stephen J. O’Brien. From wild animals to domestic pets, an evolutionary view of domestication. Proc Natl Acad Sci U S A. 2009 Jun 16; 106(Suppl 1): 9971–9978.
  5. Ian Kuijt, Bill Finlayson. Evidence for food storage and predomestication granaries 11,000 years ago in the Jordan Valley. Proc Natl Acad Sci U S A. 2009 July 7; 106(27): 10966–10970
  6. Dorian Q. Fuller. Contrasting Patterns in Crop Domestication and Domestication Rates: Recent Archaeobotanical Insights from the Old World. Ann Bot. 2007 October; 100(5): 903–924.